Quem inventou a despedida?

Há rosas no jardim, por vontade dos arrendatários e proprietários do mais belo condomínio fechado nos arredores da cidade, por uns, detestado por inveja, por outros, cobiçado pelas “rosas de cada testa”.
Um certo dia, na hora já há muito marcada, todos se juntam para a reunião de condomínio.
A reunião começa, todos se amontoam pelas escadas dos rés-do-chão.
Uns ralham por tudo, uns dizem que está tudo bem, já outros nada dizem, pois consideram-se o entulho daquela gente, que de todo não se quer bem.
O administrador do condomínio daquele ano vai lendo a ata de serviço, e vão-se discutindo caso a caso os ideários daquele condomínio.
Todos acenaram sim-não-talvez com a cabeça, porque tudo assim convém, uns por atraso do pagamento aos condomínios, outros, por se acharem aquém daquele precioso momento pequenino, outros por acharem um momento bonito.
Até à data ainda ninguém sabia que dali ia sair uma despedida.
No meio daquele amontoado de “sim senhor”,” não faça isso” e “não lho admito seu estupor”, o zé vira-se para o único presente com quem privava usualmente (daquela gente com alta cabeça, e que lá dentro só tinha um habitante, um turista ausente) … (no castelo de cartas acorrentado por paredes fartas e vasos falsos de rosas roubadas ao jardim, ideias de atas, ideias de um “de si”, “ou saltas ou eu salto por ti”, até os putos pensavam assim, ai menino!) e confidencia-lhe:
- Vou-me embora amigo, arranjei trabalho noutra cidade, e de todos só me despeço de ti.
-Espera aí, isto é uma despedida? Pergunta-lhe o confidente habitual.
-Sim, é! Confesso.
- Estás-me a despir a tua ida?
- Ahm? não comeces, ninguém te passa cartão aqui, bem nem a mim, mas no teu caso é porque tu tens a mania de pensar em demasia, e pensas em coisas e mais coisas que a todos dão azia.
- Fiz-te uma pergunta, oh adiado!
- Se despi a minha ida? É isso que queres saber? Ontem roubei uma rosa-espinho do jardim e dei-a à vizinha, sabes aquela que nunca sabe de si? Nem reparou que me piquei todo, tolo de mim!
-Será que ela despia a sua ida? Ataca-o o amigo com a voz meio tremida, por ser mesmo seu amigo, verdadeiro amigo, em demasia.
-Oh Deus, tão complicado que tu és, sei lá, nem sei onde queres chegar com esta conversa.
Quando deram por ela já a reunião acabara, todos já tinham debandado e restavam apenas os dois sentados na escada que a todos e a ninguém pertencia.
-Levo comigo um retrato dela, não digas a ninguém, vou colocá-lo na carteira no meio dos cartões, para quando a abrir me lembrar de todas as vezes que estive sem ela, a dois, a “passar cartões” nas salas de ninguém-alguém, a olhar para ela e a pensar em múltiplas e diversificadas versões.
-Despe a tua ida, só assim aceitarei a tua despedida.
-Como se faz isso? Pergunta-lhe o amigo olhando-o atrapalhado, já tinha tudo planeado, e até aquele momento datado nada do que o seu amigo lhe perguntava lhe fazia sentido.
-Meu caro, é fácil. Não vês o meu lado. Olha, imagina que sais daqui agora e que só há uma canção no mundo. Qual é que escolhes?
- Mas, tu estás a gozar comigo? Eu arranjo com cada amigo.
-Diz-me! O ar já mal se respirava devido ao acumular do fumo dos cigarros seguidos uns aos outros, apagados na jarra do lobby do edifício.
-Não sei nem te vou responder, desculpa, mas estou sem paciência para ti (pensava ele para poder retirar dai algum prazer).
-Estás a começar a despir a tua ida, meu caro amigo.
-Como assim? Pergunta-lhe em tom de ironia.
-Despir a ida é tirar tudo o que é acessório, e ir de seguida sem olhar para trás, amando a despida, e eu fui sempre um acesso para ti. Tudo que nos tapa ou abre os motivos, os ideais, a pele, os membros, o sangue, os nervos, os risos, os ossos, o coração, a mente, serás tu o único ser que rouba espinhos-rosa ao entardecer? Pensa nisso na tua ida! E mente! Mente!
-Também é acessória esta conversa, responde o amigo indignado pela conversa tão pouco indulgente.
- Até um dia.
-Podes ir, mas isto não é uma despedida!
- Mas, por raios, quem inventou a despedida?
-Guardamos essa conversa para quando tu regressares da tua birra! (eu sei como se faz, mas quero ver como fazes de seguida).

 

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