Rosa de Dalí

-Quem conhece a rosa de Dalí ?
-Quem conhece a rosa de Hiroxima ?
Pergunta um Luterano ao seu povo católico apostólico romano.
Pergunta um católico a Lutero, como se ele e ele só, fosse o primeiro e possível, último resíduo humano.
-Eu conheço todas as rosas do mundo, essas tenho lá em casa, ao lado das rosas de cada 365 dias por cada ano vivido, responde Tomé, o que só negando tanto num dia, o acreditou que havia vento, terra, mundo, sangue, dor, alegria, distância, sede, errância e concordância na discordância na palavra: (Toda a rosa é no modus verbus) Sendo.
-A dúvida, o diálogo dúbio, são o mesmo produto da mesma parede, sem a rosa de Dalí. Estás atento? Porque mentes, oh tu, que sempre levaste a palavra aos campos onde chovia, aos campos onde de tarde cada flor dormia, porque mentes, oh tu, que sempre falaste concretamente sem ver, sem pensar, sem duvidar do teu senhor? O que mais da vida a vida de ti queria?
-Tu és qual, meu senhor? Pergunta Tomé a cada suposto tirano.
-Cada um é senhor de si! Mas, podemos dizer-te que somos os senhores do mundo. Dizem, em altiva alternância.
-Tiranos! Terroristas! Hereges! Eu vou falar com o meu Deus, ele vai matar os vossos!
- O teu Deus acredita em amor? Pareces o Cândido de Voltaire. Que de tão bom não saiu do inferno. Pergunta muito sério o senhor com o quadro de Dalí ao de perto, nas mãos, para que Tomé os visse, ao quadro, às duas mil e dezanove interpretações possíveis da rosa, sem calo, sem chão, sem terra, com luz e céu, ao centro (todas estas indicações apontavam ainda para mais uma interpretação possível, se o tanto for um entretanto, o amor universal, onde cada um vê num quadro o que quer ver, numa rosa, numa luz, ao lado, por debaixo dela, num céu, numa terra o que o seu coração o chama para ser na tela).
-O coração é o terceiro olho e não o de Lobsang Rampa! Porque tu, oh tu, pregas quando vais ao campo ver as papoilas a serem pintadas e apoiadas de branco, Tomé? Vês tudo em todo o lado, o que vês aqui, diz-nos? És capaz de sentir amor por nós, só por te mostrarmos esta, a de Dalí? Afinal, foi por amor que ta trouxemos e ninguém se meteu até agora na nossa dialéctica desmesurada, onde a única pergunta que te fizemos, já ta tu negas e dizes que gostas de rosas e que tens. Negar não é só dizer não, é omitir a voz do coração. Amas rosas, Tomé? Tomé, o que tens?
-Porque falam eles? Pergunta Dalí.
É preciso chamar numa mão mundial, um povo descalço, para mostrar a minha rosa? É só uma rosa e como toda a criação, depois de ser concebida de uma para a outra mão, entra-nos e sai-nos do coração, deixa de ser nossa, não posso fazer nada e estou aqui no meio, ao centro da rosa como espectador de um julgamento, de um teatro onde ninguém percebeu ainda nada, nem da rosa, nem do quadro, muito menos de mim, ad eternum, nem de si. E, uns falam, armados em tutelares do conhecimento, outros, do amor universal e, o outro que também os ama, responde. Responder é uma das maiores provas da existência da rosa de Dalí, a minha, dali, aqui, neste mundo. Aqui. Passaste a prova, Tomé! Olha para aqui! Olha para aqui! Sou eu, o Dalí!
- Ninguém se cala? Pergunta Samuel.
Para quê tanto parlatório para explicar isto: cada um vê o que quer ver, mais nada, simples, sem grandes teorias ou correntes teológicas ou filosóficas ou transgeracionais, transaccionais limpas e impostas, nem tampouco esquemas de simbologias avivados de par em par, para quê? O Homem não deixa de ser animal nem o animal deixa de ser homem. Para se armarem em senhores sabidos por em segredo saberem o que é o quadro, rosa? Já agora, o que é uma rosa? Sabem? Como se planta? Como se alimenta? Como se chama? O que ama? Gosta do frio? Gosta da chuva? Gosta do sol? Gosta de jardins, vasos ou rooftops? Orófitos simples, cheios de nada, o mundo já se viu? Vasos sem flores, muito menos uma rosa, para que possa ser por vós um dia e um dia só, na sua juventude, entardecer e amadurecer, arrancada. Todo o homem tem por natureza própria e insubstituível o direito de dar e ter uma rosa de Hiroxima, outra de Dalí. Porque só falam de uma? Aí e aqui? Prestígio ou déspota?
Demagogia feita em casa para virem para aqui armados e doutrinistas e avivas de camisa e gravata, urra, aos que vocês pagam para poderem rir, os artistas, dali! Dali, são os artistas. Não os que vós tendes, aqui! Já agora, viram alguma rosa antes de chegarem até aqui? Como era? Era um ele ou uma ela? Além de bonita e possivelmente por vós usufruto, o que estava a sentir e a pensar quando vocês passaram por ela e tiveram a mão para poderem apanhar ou não do chão? No jardim, na loja, no lobby da entrada? Como é possível não vos doer a mão? Como? Isso que têm, é uma mão?
-Em nós! Responde Púbol. Em nós!
Pode haver uma rosa de Dalí e uma de Hiroxima em cada casa, de cada um de vós. Porque falam só da que fala de mim? A outra, a outra, porque não falam?
Afinal, há tantas rosas no mundo como há homens e mulheres. Porque falais da minha, é minha, isso não vos diz nada? Falem apenas disso, do que sabem, o resto é desculpa sem água e sol, sem vento e lua, sem o mundo que só não quis ver uma nua. Querem falar da rosa, pois falem!
Criticam-se tanto e esquecem-se no regozijo infantil escondido e arquitectado que vos dá dinheiro para todas as rosas do mundo, que tendo tudo, não têm uma, a minha. De Dalí. Nem o quadro original vos salva a alma, não fosse eu dali. Querem rir? Sou artista! Palmas! Estou aqui! Olha, aqui! Olha, ali!
Andam na rua? Não, não, a rua é que vai comigo. Sabem o que diz a minha rosa? Que ama sem espinho. Aqui e ali. A de Hiroxima, não querereis, pois, ficarei com toda ela para mim.
E, assim... vou indo.

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