SEI QUE ESTÁS EM FESTA PÁ!

Tinha decidido que este ano não escreveria sobre a Revolução do 25 de Abril, sobre aquela tal festa, pá! … Aquela que deveria ter sido para todos, mas que acabou por não ser para todos…, não foi para muitos, demasiados…
Então o que te fez mudar de ideias, pá?! – estarás a perguntar. (Nos nossos solilóquios tornamo-nos íntimos de reis, políticos e até de ladrões confessos e, damos connosco a trata-los por tu – se não é da liberdade, é, pelo menos, uma forma de sã libertação.)
- Foi uma fotografia que, nesse preciso dia do ano de 2017, tiraram ao “Petinga” no Mercado Municipal desta Figueira da Foz, na qual, ele está -tal e qual como é- com um lindo cravo vermelho nas mãos.
- Vou dizer-te, porque tu não sabes, pá!: o “Petinga” é um HOMEM que tem o aspecto sujo comum a todos os HOMENS que foram abandonados pela “sorte/azar” da vida, mas que têm a alma impolutamente limpa. Ele é um daqueles que, se os tais cravos –a tal festa- tivessem chegado para todos ou a todos, a sua “genialidade” reflectida na sua desadequação social e até funcional, “genialidade” essa, causada por uma hipotética esquizofrenia, teria sido utilmente aproveitada e conduzida…, mas…, como os cravos não chegaram para todos porque alguns arrebataram cravos a mais para si…, o “Petinga” é o que é, e, é como é…
- Vou contar-te, pá!: chegou-me a notícia da festa já eram 8:00 horas da manhã em Angola, onde então vivia, –era a terceira geração lá nascida e, segundo a lógica do regime deposto, seria um cidadão de 4ª categoria-, tinha 16 anos e estava condenado a passar ao lado da vida, sem ter consciência da vida estúpida, cega e manipulada que já me condicionavam a viver. Nesse estado, olhava, mas não via! Não via as injustiças que estavam ali -a olhos vistos- bem à frente dos meus inocentes olhos.
Para mim, as alegrias da festa, a minha satisfação directa, foi a travessia dum PORTAL DIMENSIONAL que me deu ganho duma CONSCIÊNCIA a partir da qual comecei a procurar e comecei a descobrir, a pouco e pouco, aquilo que verdadeiramente está por detrás deste falso cenário que nos convence que o espectáculo aí exibido, é a vida verdadeira. Paguei e pago assumidamente o preço de não querer… Não quis, não quero e não quererei ser fantoche da tal encenação. Bebo assumidamente o amargo da liberdade que me é possível…
- Deixa-me continuar a contar-te, pá!: há dias, vi um amigo perdido da inocência da infância perdida. Também me viu, e também fez de conta que não me viu – fazemo-lo assim há mais de vinte anos. É assim a vida! Assim continuaremos! Ia sozinho. Não tem amigos. Tem muitos camaradas, muitos “irmãos”, muitos correligionários, muitos confrades, muitos de muita coisa…, tem, até, uma lista telefónica com muitos contactos espalhados pelo mundo, mas não tem amigos, nem necessita de tal! Ele tinha acabado de estacionar o seu carrão. Que carrão! Achei-o triste! É maldição!, – dizem! Há pessoas que nem carregadas com todo o ouro que têm, luzem! Ele está bem! Sei que ele está bem, dizem que está mesmo muito bem…, pese embora não tenha um ar muito feliz…, dizem que acontece a todos aqueles que atraiçoam as suas origens…, coisas da tal CONSCIÊNCIA…, certamente!
- Enganaste-te Chico Buarque, porque a festa não foi para todos, pá! Não foste o único. Enganámo-nos todos, pá! Enganaram-se todos os idealistas que como tu e eu, pensavam, pensam e continuarão a pensar que as FESTAS são para todos, pá! Mas…, mas quem pagou, paga e pagará verdadeiramente a dolorosa factura, foram, são e serão os nossos indefesos e inocentes “Petinga(s)”.
Assim será, enquanto cada um de nós não fizer a sua Revolução Interior, pá! Enquanto vivermos a FESTA dos outros, pá!, Enquanto não vivermos aquela FESTA que, mesmo sem cravos, nos liberta – escravos!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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