Significante ou significado, Solimão

quando decido por fim
que já não sei
o que mais me fascina
se é o significante ou o significado
deuses, dúvidas
nas horas dúbias
combatem entre si
nas nuvens
nos meus olhos, vejo
planetas sem fim
desses que temos cumprimentos correspondentes
ao que os hóspedes têm de diferente entre si
comecei então a unir esses e aqueles fanecos de termos
o que não era assim tão complicado
era-me eu por todo o lado
(e vi-te lá também, a ti!)
retalhado bocado a bocado
impossível de dizer ou o reescrever se tornou
em perceber-me, porque, isso já era em si e per si, um trabalho
que nunca se findará ou findou
se eu me perlustrava de
significante ou significado
exposto e não transmitido
gerando ou gerenciado
poemas sem fim
ou invés outro, ainda mais depositário
um ponto final que faltou
ou uma vírgula a mais, outra ideia que não acabou
fazendo com que o barco não pudesse atracar mais no cais
onde tanta vida começou e acabou
livros e ideias, um dia na varanda,
uns possuídos, outras, apreciadas
como lume ardendo ferozmente no ardume da lareira
como as areias dos baldes vendidos na loja da vizinha
guardados “a dias” no sótão a monte
de mãos dadas e fartas
como balas perdidas nos filmes de cowboys
como setas de seios de índias guardadas no cú de bois
qual deles?
significante ou significado?
um dia, percebi porque escrevi todo aquele farelório
alicia-me procurar o significante ou o significado
pedaços de folha que
ora escrevo
ora guardo
ora rasgo
ora queimo
ora mostro
dali por diante
sem que por ventura se me mostre como se eu
me fosse um quadro
ou um rosto ao de fundo no pó espelhado
significante ou significado, deixo
recados à vizinha da rua mais distante
também lhos guardo
não me esquece a areia que ela também vende
e que também guardo
talvez assim um dia elas percebam
porque fui e não fui a nenhum lado
quando temos a luta do significante ou o do significado
tudo é posto de lado
hoje, ao entrar no sótão deparei-me com folhas a mais
e todas
todas
tinham uma ou outra emenda também
sentei-me, li cada pedaço e cheguei à conclusão
que não sei o que me faço
se mais longe
se mais perto
porque escrevo e leio
porque expilo
porque guerreio
ideias outras
palavras como se fossem
pedaços de pão na boca de um confundido cão desventurado
que pertence à luta de poetas que vassouram, pascem e descansam na rua,
o seu palco, os poemas
e as suas camas, as estrelas mais incorrectas,
não e sim,
por fim, dentadas de tão escorreitas
essas eternas silhuetas
entra-me na língua
fere-me a gengiva
enche-me de fermento e pergunta-me:
-Sofres de corticite bicuda? pergunta-me o perro que agora se tornou meu amigo.
-Que pergunta, sofro de fermento e de tempo pouco ido.
-O que é que queres ser quando fores grande?
-Que pergunta, quero poder ter ainda o direito de escolha.
-De quê?
- De poder escolher ou não, o que quero ou não ser.
-Tiro a rolha?
-Espero que sim, se a entenderes como eu, se é que me faço entender.
-Não percebo.
-É normal, faz parte do meu ser, abre a garrafa e eu explico-te, amigo meu, mas, que ninguém nos veja, um cão e eu, ai poesia, a tua boca a todos beija!
-Pois ia, poesia!
-Só aí existimos nós meu caro cão, tu um arruado em busca de fermento, e eu um eterno interrogante de significante ou significado, a eterna luta que eu tento.
-Tens medo?
-Não, enquanto tiver as folhas ao de perto da minha mão (e também um pouco de Solimão para desalmar aquele dia de querido amigo cão caro, cão).

 

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