Só e sozinho

A solidão é o estrado desleixado do palco da vida escondido atrás da cortina de veludo da vã glória.
Sozinho – é palavra comprida da solidão;
Só – é palavra concentrada da solidão.
Por vezes sentimo-nos sós não estando sozinhos e, outras vezes, estamos sozinhos apesar de não estarmos sós, mas sós ou sozinhos a solidão dói sempre muito.
A solidão da palavra concentrada dói-nos tanto, ou até mais, quanto nos dói a presença das pessoas que fazem sentirmo-nos sós.
Pensando bem, nem sei se prefiro a solidão da palavra concentrada a estroutra solidão da palavra comprida que nos é incutida através da companhia dos corpos presentes envolvidos na bruma da distância intransponível.
Estoutra solidão, a da palavra comprida, é talvez a que causa a dor mais intensa, é a mais estéril e egoísta, porque nos impõe a presença de desafectos gelados que nos queimam como o fogo intenso do empedernido gelo transparente que não se condói com nada.
Ambas provocam a dor do vazio que cava um buraco dentro de nós, são como uma escuridão de dor e morte que se alastram continuamente, porque assim como o escuro dói, a solidão da palavra comprida e da palavra concentrada são geladas e doem também. Dentro delas uma parte de nós chora de tristeza e amargura e a outra diz-lhe para não chorar, porque às vezes é melhor assim…, às vezes estamos muito melhor assim…, sozinhos e sós e sós e sozinhos.
Quando olho à minha volta, vejo tanta gente só e, tanta gente sozinha, estas –as sozinhas- vão geralmente acompanhadas de risos, gargalhadas, cumprimentos e despedidas efusivas com beijos triplicados de muitos Judas, beijos dados com o acompanhamento de muitas promessas de curtas memórias e com o rasto largo das tristezas disfarçadas pela aparência duma alegria que não existe, mas que ilumina e doura o palco das falsidades e das vaidades dividido pelas cortinas de veludo vermelho que tapam o desarrumo trágico do teatro sem teatro, nem guião, onde reina o amontoado das cadeiras partidas, o pó das memórias e das promessas não cumpridas, os adereços sem uso, os guarda-roupas atafulhados de vestes inutilizadas e apertadas e sem préstimo, caídas no sossegado esquecimento que tudo vai matando na obscura calma consoladora.
No teatro, tudo pode ser teatro; na vida … também muito dela pode ser teatro… e a solidão pode ser a da palavra comprida ou a da palavra concentrada ou, pior ainda, a de ambas. A solidão misturada de ambas as palavras - comprida e concentrada- é a verdadeira solidão!
A solidão é o estrado desleixado do palco da vida escondido atrás da cortina de veludo da vã glória.
Sozinho – é palavra comprida da solidão;
Só – é palavra concentrada da solidão.

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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