Tempos, tudos

Esqueci-me de te perguntar, posso?
Não sei se o deva, sequer. Se calhar fazia melhor em simplesmente me deixar estar.
Por vezes, as perguntas fazem-nos mal, deixam-nos tristes e zangados, furiosos e atulhados de possíveis respostas construídas no nosso gráfico imagético. Somos ofertados e somos passadio. Somos gente que passeia e ri de mão dada à beira rio.
Não sei se me vais responder, mas tenho de te perguntar.
E ao perguntar-te a ti, pergunto-me também.
Assim, é uma pergunta dividida entre nós os dois. Parece que assim é mais fácil.
Parece que assim, é-me mais fácil.
Gosto de dividir tudo contigo, por isso divido esta pergunta.
Queres dar-me a mão e não dizer nada, nada, e ficarmos juntos em silêncio a ouvir o tempo a passar?
Enquanto te divido esta pergunta quero que saibas que todas as respostas são válidas. Basta! Mudo de assunto,e tu desarmas com notório e peremptório talento, cada atitude, cada rajada de tiros ao vento. Quando te dizem que basta, que já chega, que não.... Quando te mandam para dentro. Quando te mandam para o chão. Armas cada novo casquilho...Com pó seco enches um vasto e incalculável rastilho. Afias cada pedra dada, sem sequer ser sentida, sem mesmo ser lançada. Andas na luta de almas, que se fundiram pelo caminho desértico das calmas. Andas na luta, lutas contra o tempo, lutas de argumento, lutas de momento, na luta das crianças que não cresceram nas suas almas. Fúrias divinas de tempestades calmas, luzes foscas sãs e palmas, abatem cada segredo, de gestos heróicos de medo. Almas! Almas!
Oh fúrias! Oh salvas! Porquê tanto castigo? Tens de ter na vida pelo menos uma guerra!
Tens de te preparar! Onde vais chegar, só a ti podes penitenciar.
Se te vencerás, se te encontrarás, só na guerra gasta no seu próprio tempo, num dia o saberás.
Na loucura da guerra e do tempo, nem anjos nem sustos de bestas de sofrimento...tu viverás.
Só tu e tu o saberás! Se o rastilho chegará naquele certo momento que te fará parar de olhar para trás. Usa e abusa de cada argumento se isso te trouxer paz! Usa e abusa cada silêncio se assim gritares o que deixaste para trás! Na penúria das almas deste tempo, aponta para quem gostas sem olhares para trás. Acerta no alvo pequeno e recôndito do teu juramento, só esse te fará encontrar o que, no tempo, o tempo te faz. Batem palmas lá atrás, ouves o zás paz?
Nas falas que falas do tempo? Só tu as ouvirás. Tenho a alma tão grainha e carregada,
como o borrão deste lápis, de ontem, de então...tenho os sentidos tão afiados quanto
o bico deste lápis de hoje, de cada sim, de cada não. Escuro é o meu dicionário, com cada palavra nova, para si caro Homem-não! Carrego em mim todo o sezonismo, de escrita à deriva,
de dedo na língua, de resumos de conversas sem visita. De prato de iguaria cheio de gente dita pelo não dita, escolhida mesmo antes de termos vida propriamente dita.
Escorrego pelo chão que me é tão meu, como não, que me agarra, que me solta,
que me passeia e que me aponta, cada erro meu com a sua mão.
Tenho a alma aberta a toda e qualquer questão, navegando de barca em barca sem castigo nem perdão.
Dá-me a tua mão!
Sabes, de facto há um tempo para tudo, será que também há um tempo para pensarmos no tempo que demoramos a pensar o tempo que temos?
Há tempos bons e tempos maus, e tu para mim és tudo.
Há tempos rápidos e tempos lentos, e tu para mim és tudo.
Mas são só e apenas tempos. E tudo é-me nada a nudo.
Dedico este meu pequeno tempo, para te perguntar:
Já tiraste tempo para pensares em tudo hoje?
E para pensares em nada?
Não… e sabes porquê? Porque embora tenhas tantos tempos acabas sempre por ficar sem nenhum. Sabes porquê? O tempo não é nosso, nós é que somos do tempo e dos seus tudos.

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