Com a Figueira da Foz, com os Figueirenses.

Todo o pecado será castigado!

Viu-a de relance! Viu-a pelo canto do olho! Ainda tentou ignorá-la..., mas... já sabia que era uma luta perdida. Era mais uma batalha perdida! Recomeçara tudo de novo. Recomeçara tudo outra vez! Recomeçara tudo..., mais uma vez!: «-Oh!, meu Deus! Oh!, meu Deus!... Ajuda-me! Ajuda-me a resistir! Dá-me forças! Ajuda-me!!! - suplicou-Lhe!-, sabendo... que suplicava em vão!»
A ela, apesar da sua fresca inocência, não passou desapercebido aquele olhar! Ela também teve absoluta consciência daquilo que se estava a desenhar... Anteviu o desfecho como inevitável! Sabia que não tinha como escapar-lhe! Por demais, é um homem ficar obcecado com a ideia! Sabia-o! Para piorar tudo, para a consumação daquela iminente inevitabilidade..., até os números, até a estatística, bem como as restantes circunstâncias estavam contra si! Ela estava sozinha com ele naquela sala - ela era a única...
Viu, perfeitamente, as pupilas a dilatarem-se-lhe! De forma quase imperceptível a princípio, a respiração dele, começou a alterar-se; Afundava! Afundava e intensificava-se progressivamente!; Era evidente, era incontornável, não restava a mínima dúvida!, tinha a certeza absoluta! Ele já se encaminhava na sua direcção! Ele já não conseguia dominar-se..., já nem se preocupava em disfarçar os seus intentos!
Era notório que lutava consigo! Mas também era notório, que era uma luta inglória. Era incontornável..., a transpiração do desejo incontido traía-o! Já lhe reluzia a pele da face e formavam-se as denunciadoras gotas de suor na testa. Tinham-se corado progressivamente as bochechas da cara e já haviam passado do rubor para o quase avermelhado. Instintiva e discretamente limpou às calças o suor das palmas das mãos! Já lhe estavam irremediavelmente alterados, a respiração e o olhar! Rápida, cava e funda já estava a respiração e, friamente vítreo e predatório, estava o seu olhar! Pesava no ar, o cheiro pestilento da sua transpiração.
Submissa, paralisada e quase conformada..., ela aguardava o inevitável desfecho! Resignada, esperava que se cumprisse..., esperava que pelo menos fosse rápido..., já que não havia como fugir-lhe..., era o seu destino! Antes de si, já muitas outras haviam sucumbido assim..., já muitas outras tiveram o mesmo predestinado fim!
À distância suficiente e com rápida precisão, ele deitou-lhe a forte e decidida mão! Apertou-a com força! Apertou-a com bruto e incontido desejo! Chegou a si o piloso nariz! Arfava descompassadamente! Deglutia, deglutia, deglutia a abundante saliva! - Credo! Credo! Credo! Que mau hálito horrível - pensou ela, antes de desfalecer!
«Esta já não me escapa! Esta já não me escapa!» Exultava!, enquanto num arrependido suplício repetia: « -Perdoa-me! Perdoa-me meu Deus!, mas não consigo resistir-lhe! Que se lixe! Que se lixe!; Ferviam-lhe as palavras no cérebro! Queimava-o o sentimento da culpa! «Todo o pecado será castigado! Todo o pecado será castigado! Todo o pecado será castigado...», Bem o sabia! Se o sabia...; «Esta já não me escapa! Esta já não me escapa!» Esta era finalmente sua!...; Ia comê-la! Ia comê-la!... «Todo o pecado será castigado!»; Ia comê-la! Ia comê-la!...¸ «Todo o pecado será castigado!»; «Todo o pecado será castigado!», martelava-lhe debilmente a quase desfalecida réstia da consciência...; «Não me importa! Não me importa!» -sobrepunha-se-lhe a voz da gula e do pecado! Esta já não me escapa! Esta já não me escapa! Esta é finalmente minha!...; Vou comê-la! Vou comê-la toda, todinha...; E... com decidida determinação..., louco!, louco de gula e de desejo..., com precisão fria e calculada..., começou a penetrá-la..., penetrou-a lentamente até meio... enquanto com os olhos transbordantes de gula e de desejo..., antegozava com pequenos e suaves "Vai-vém" a prenunciada consumação... que protelava quase em êxtase... estava quase... quase... quase... só mais um instantinho. Mais um instantinho...
Foi nesse preciso instante, que soou um enorme e desesperado grito: « Ohhh! João! João!!! O que estás tu a fazer?!?!!!; Malvado!!!»
Apanhado assim..., apanhado em flagrante! Assustou-se!!! O João deu um enorme salto! Largou-a da mão!; E...., e... ela caiu para o chão. Ela partiu-se, estilhaçou-se em mil cacos! A colher e todo o arroz-doce também se espalharam pelo chão!
« - Olha os teus diabetes! Olha os teus diabetes!!!» - gritava-lhe a mulher em completo desespero!.
Desconsolado! Desconsolado..., o João olhava para o arroz-doce espalhado no chão! Nem uma única colherzinha tinha conseguido levar à boca! Nem o chegara a provar...

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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