Tsundoku

Desconhecia que esta palavra existia. Contudo, durante muitos anos padeci dos efeitos e das consequências que ela descreve o seu significante.
Tsundoku, é uma palavra japonesa de significado diferente daqueloutra nossa palavra – bibliomania- que embora lhe seja próxima, é apesar de tudo, completamente diferente no seu significado, fins e efeitos; tsundoku traduz uma atitude procrastinatória da leitura que se consuma no acumular de livros adquiridos sem critérios, na esperança de um dia ter-se tempo e condições para os ler; a bibliomania, obedece a uma lógica completamente diferente. Nela não existe a ilusão nem a pretensão do seu “acumulador” vir a lê-los todos. Ele acumula-os segundo critérios vários, acumula-os por gozo pessoal e para futuro proveito doutros. Não raramente, chega a repetir as sucessivas edições da mesma obra, tal como qualquer vulgar colecionador faz nas suas colecções.
Sem me aperceber, fui durante muitos anos uma vítima ou um praticante de tsundoku. Todos os meses comprava vários livros que sabia de antemão não ter tempo nem condições para os ler.
Nesse embalo, nessa ilusão…, acumulei centenas e centenas de livros impregnados da minha vaidade a coberto das suas capas abrilhantadas por pomposos títulos e renomados autores, até que um dia…, durante uma visita a um cliente, no seu laboratório de análises clínicas, a conversa derivou para a literatura e para os livros. Inesperadamente, ou como se costuma também dizer: “sem mais nem menos…”, ele ofereceu-me um livro intitulado: “ Está a brincar Sr. Feynman?”, deu-mo com a sugestão de o tornar a dar depois de o ler.
A minha estupefacção levou-o a explicar-me que procedia assim com todos os livros que não fossem de consulta técnica. Dava-os quando os acabava de ler. Explicou-me com lógica, que a função dos livros é serem lidos. A função deles não é a de embelezarem estantes, nem acumularem pó enquanto envelhecem e amarelecem imobilizados na profunda solidão dos esquecidos.
Entendi! Percebi, interiorizei e realizei que a verdadeira função dum livro é ser lido. Percebi que ela se realiza tanto mais, quantas mais vezes, cada exemplar for lido.
Entendi! Percebi, interiorizei e realizei que o livro serve para espalhar as palavras nele agregadas e amarradas. Ele prende, ele é a prisão das palavras que depois solta, que espalha livremente, apesar de as ter sempre presas dentro de si quando anda solto pelo mundo a passar de mão em mão.
Entendi! Percebi, interiorizei e realizei a aparente contradição em que eles se cumprem enquanto prisões das palavras que libertam, mantendo-as presas dentro de si, para que nunca se percam umas das outras, nem percam o sentido e a missão que ganharam juntas.
A partir desse dia libertei-me deles, e libertei os meus livros. Comecei a dá-los. Dei muitos. Dei quase todos. Dei a maioria deles sem nunca os ter lido. Agora, quando compro, só compro um livro de cada vez e, invariavelmente, dou-o quando acabo de o ler.
Hoje, sem os ter como meus prisioneiros, leio incomparavelmente mais, do que quando os aprisionava inutilmente, às centenas e centenas, a um prazo sem prazo, no meu ilusório egoísmo.
Agora, vou à biblioteca pública requisitar os livros que quero ler, e comprometo-me a lê-los dentro do prazo útil e razoável que me é concedido para tal.
Aprendi! Tsundoku, nunca mais!

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

 

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