Uma tarde no parque

Decorre o verão! Corre o tempo no seu sempre certo tempo dos dias crescidos e sem pressa. É sábio o tempo que consigo sempre se acerta com harmonia.
Eu estou à sombra do verde dos pinheiros mansos quando não venta como acontece hoje. Ao sol estão dezenas de inocentes e alegres crianças num reboliço chilreante, enquanto gritam às bolas que lhes fogem apressadas, aos arcos coloridos que rodam, rodam, rodam até ficarem mais tontos do que elas e aos coitadinhos dos passarinhos que assutados com aquela algazarra nem piam, mas muito piam e chilreiam estes outros passarinhos grandinhos que voam somente nas asas dos seus sonhos, os voos inocentes em que embarco também… apesar de estar aqui parado e paradinho, quieto e quietinho, somente me movendo nas longas asas da minha imaginação. Elas vêm-me muito grande e eu vejo-me ainda menino pequenino.
Grandes são as árvores que não choram, mas apenas sacodem as lamúrias ao vento que tanto as castiga; grande é o vento irrequieto que não sossega e tudo agita como bandeiras frágeis e permissivas; grande é o Sol que não perde nunca o sono, nem passa uma só noite em branco e que dá metade do tempo da sua glória à Lua para que ela também brilhe como uma verdadeira rainha; grande é a sombra que nunca é inteira e que desaparece na escuridão e que não se importa de crescer debaixo ou atrás de qualquer coisa e que até pode chegar a tomar metade do mundo; grandes são os grandes que nem sabem quão grandes são, porque não têm termo de comparação.
Eu sei que sou apenas grande nos meus sonhos e nos meus devaneios. Só neles sou inteiro e senhor de mim. Neles, não sei sequer quão grande sou, porque os sonhos e os devaneios não se medem, nem se comparam e é por essa razão que quem muito sonha se sente sempre um menino pequenino e muito feliz.
Pensava assim … e assim me sentia, quando meio envergonhado desci do meu sonho no profundo azul do céu sem tamanho e imensurável e bati nos mil verdes bravos das copas mansas dos pinheiros médios à minha frente e sobre mim muito sombreiros. Inclinei humildemente a cabeça e vi-as às centenas aos meus pés, agora sim, bem assentes na terra. Eram centenas de seis, de sete, talvez de oito ou mais…, de tão imensas e impossíveis de contar que eram. Elas estavam num frenesim estonteante, numa azáfama de cabeças perdidas, quase humanas. Não era com toda a certeza uma azáfama humana porque era completamente silenciosa aos meus ouvidos – tenho orelhas grandes e oiço quase nada da vida, assim sendo, não eram necessárias duas!
Pensava nisto enquanto as observava. Sentia-me como um semideus no Olimpo a observar os humanos. Lá do meu alto, inclinei-me ainda mais para ver melhor. Faziam-me lembrar o trânsito acelerado e caótico de Casablanca, onde a única regra a não desrespeitar era a de não se poder bater ou chocar com os outros veículos, de resto, valia tudo. Conduzir nas ruas daquela cidade é uma loucura total. Também entre elas assim parecia. Numa atitude louca, própria de um trânsito sem regras e sem acidentes, elas circulavam desenfreadas, transportando pedacinho por pedacinho o cadáver centenas de vezes maior que elas que paulatina e metodicamente iam desmanchando. Era a azáfama da sobrevivência espelhada na sua crueza total, era verdadeiramente o “primum vivere, deinde philosophari!” – pensava eu!
Entretanto, reparei numa delas que diferentemente de todas as outras, não embarcava naquela correria, naquela insensatez. Primava pela diferença, tinha o ar distinguível dos pensadores, tinha aquele não sei quê de diferente, podia ser professora, poeta, filósofa, tinha a fragilidade da diferença contraposta à braçalidade musculada das certezas eficientemente executadas com a determinação das outras, tinha dúvidas…, tinha uma existência pensante e observadora…, percebe-se facilmente quem igual a nós é. Era certamente a incómoda, a “ovelha ronhosa”, a Fernão Capelo Gaivota lá da comunidade – pensei no meu ainda atávico pensar que tudo tende a normativar e a formatar.
Meti-me com ela, provoquei-a: – Tu és preguiçosa? Porque é que não andas nessa lufa-lufa, nesse corre-corre de barata tonta como andam as outras? – perguntei-lhe acintosamente.
- Não! Não sou preguiçosa! Sou diferente. Nasci assim e não tenho culpa e elas também não. Amamo-nos todas da mesma maneira. Aceitam-me assim e amam-me assim! – disse-me naturalmente convicta.
- Não passas fome? Dão-te de comer sem trabalhares? – perguntei com sincera curiosidade.
- É evidente que não passo fome! - indignou-se. Ninguém na nossa comunidade passa fome, nem ninguém usufrui menos do que ninguém e só colhemos o quanto nos baste, não acumulamos.
- Voltei à carga novamente. - Entre vós não existe a ganância? Vós todas pareceis ter mais barriga do que olhos, ao passo que nós temos mais olhos do que barriga – disse-lhe meio acabrunhado.
- Ganância?!!! Não conheço essa palavra. Ela não existe na nossa língua. Explica-me o que é que essa palavra significa.
Expliquei-lhe sucintamente que a ganância é a apropriação de tudo aquilo para além do que nos basta e que, como consequência, depois acaba por faltar a outros. Também lhe expliquei que a ganância a par com a vaidade e a par com a ambição do poder são os maiores flagelos da humanidade.
- Sabes?, – disse-me ela- na nossa comunidade, na nossa família, não existe nada disso, somos seres de barriga grande e também de grandes olhos, vemos muito, vemos muito bem e muito longe, mas comemos apenas quanto nos baste; não lutamos entre nós por comida, nem por bens, nem para aligeirar ou fugir ao nosso trabalho ou para subjugar alguém; na nossa comunidade ninguém passa fome, no nosso meio não há mendigos, não há ostracizados, pobres ou ricos, órfãos, viúvas ou velhinhos abandonados, nem há dor para além da natural e inevitável.
- É mesmo assim como me dizes? – eu estava atónito.
- Já te disse que entre nós não existe ganância nem nenhum desses outros males que tanto vos afligem e destroem. Entre nós quando morre uma à fome, morremos todas! Não há meios termos, meias pobres, meias ricas, nem metades de nada, somos todas uma e uma só somos todas.
- Para nós humanos essa sociedade é utópica. Perseguimos a sua construção há séculos e séculos, já teorizámos e criámos as mais diversas ideologias e sistemas políticos e apenas conseguimos causar muitos milhões de mortos, muitas guerras e o aprofundamento do fosso das desigualdades entre os homens, bem como a horrenda fome que tanto nos mata desumanamente. – pensei em voz alta e disse-lho com amargura.
- Alguma vez viste alguma de nós morta e abandonada nos caminhos deste mundo? – perguntou-me convicta da minha resposta negativa. Quando pressentimos a morte recolhemo-nos nos braços e abraços das nossas companheiras e todas nossas irmãs e morremos envoltas em amor. Partir…, para nós não é dor nem é tristeza, é um simples até já em direcção à eternidade, é apenas uma mudança de densidade. Nós não temos chefes, nem necessitamos de líderes, nem de déspotas nem de profetas, nem de ídolos, nem de falsos deuses, porque todas juntas somos parte duma consciência colectiva que ondula como um todo, que geme e cria vida como um mar e que nos guia e nos governa de tal modo que todas somos apenas uma e uma somos todas, também são assim as bactérias e muita da vida que vós presunçosamente julgais inferior, quando na verdade, vós não passais de micro universos delas que vos implodem quando elas se desgovernam, tal como vocês se desgovernaram e estão prestes a implodir a terra. Fala-te agora a professora, a poeta, a filósofa e preguiçosa pensadora, ó semideus! tão arrogantemente preocupado em crescer para cima para estiolar tudo: consciência; Deus; vida; Terra, tudo…tudo, tudo, vós que do nada nada conseguis fazer e arvorai-vos até em deuses! Insensata espécie! Seríeis Deus se do nada fizésseis tudo! Crescei para baixo para juntardes os vossos cacos no novo uno e para que se forme a tal consciência que vos permitirá crescer e sobreviver, ó criaturas perdidas de tudo, principalmente de vós próprias! Intriga-me porque é que procurais tanto por Deus e depois o renegais e desprezais tanto quanto a vós próprios!
Entretanto, elas acabaram de recolher o alimento e partiram ordeiramente, incluindo a minha interlocutora. Delas não ficou rasto nem sinal, nem pegada ecológica suja ou prejudicial. Ficou apenas o seu mundo bem preservado para as suas posteriores gerações.
Confesso que com elas, com aquela professora, poeta, filósofa e preguiçosa pensadora aprendi muito e, sobretudo, tomei um banho de humildade e do verdadeiro crescimento para baixo. Cresci tanto…, aprendi tanto…, que até me apeteceu partir com elas… Pensando bem!, sinto que já sou parte integrante daquela consciência! Sorri feliz!
- Porque estás a sorrir e a olhar para o chão? – perguntaram-me. - Estás bem? Estás com um ar meio aparvalhado! – disseram-me ainda.
- Estava a pensar na simplicidade e na harmonia que esta vida poderia ter, se... - disse respondendo, enquanto regressava a contragosto para a desumanidade a que pertenço.
Também já os meninos partiam numa fila indiana de mãos tão humanamente dadas naquela corrente que a vida se encarregará de despedaçar implacavelmente, atirando cada uma para seu lado e desfazendo promessas de inocentes amizades eternas e transformando muitas dessas criancinhas em aprendizes de feiticeiro e semideuses bárbaros e de má índole, mas sobressaltou-me a esperança convicta que alguns deles, um dia não muito distante, virão a conseguir falar com a formiguinha professora, poeta, filósofa e preguiçosa pensadora e com ela aprenderão para depois ensinar muitos, muitos, muitos a ler o mar da consciência cósmica.

Figueira da Foz, 1 de Agosto de 2019, dia em que o meu irmão Ângelo Ramalhete, a quem dedico este texto, fez 58 anos. Parabéns mano!

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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