Viajar!

Estou a ler um livro de Edward Morgan Forester, intitulado: «Um Quarto Com Vista», cuja leitura me está a deliciar. Nele, deparei--me com a seguinte frase: «Não se vem a Itália à procura de requintes -foi a resposta. - Vem-se por vida!»
A ideia que esta frase comporta, complementa-se com estoutra que Fernando Pessoa expressa no "Livro Do Desassossego", pag. 250 e 251: «O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório (...) Este rapazinho coleccionava folhetos de propaganda de cidades, países e companhias de transportes; tinha mapas -uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali-; tinha recortes de jornais e de revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exóticos, retratos de barcos e navios. Ia às agências de turismo em nome de um escritório hipotético ou talvez em nome de qualquer escritório existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para Itália, folhetos de viagens para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tinha conhecido: era também uma das pessoas mais felizes que me tem sido dado encontrar (...) mas talvez um dia, em velho, se lembre, como é não só melhor, sendo mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.»
É admirável esta concepção: "...é não só melhor, sendo mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus"; ela só podia provir dum(a) Pessoa que dizia: «-A ideia de viajar nauseia-me.»; «Já vi tudo o que nunca tinha visto.»; «Já vi tudo que ainda não vi»; «A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.»
Ir a Roma e ver o Papa é, obviamente, o mínimo, mas esse mínimo é pouquíssimo! Conheço muitas pessoas que tiram muito partido das muitas viagens que fazem. Elas têm muito prazer em viajar e viajam também para conhecer e para se "enriquecerem". Essas pessoas fotografam com a alma! Filmam com os olhos e memorizam tudo com pormenor e grande prazer. Memorizam sons, ventos, cores, cheiros, sabores, sotaques, diferenças e semelhanças! Tronam-se em autênticas esponjas. "Esponjam", chupam tudo!
Sei por experiência que o sol sendo só um, não é igual em todos os sítios. Também sei que o mar é sempre diferente de lugar para lugar. Sei que as rosas são e cheiram diferentemente cá, lá ou acolá. Viajar é também ir à procura de outras culturas, é procurar o espanto em cada esquina.
Há cerca de trinta anos, um jornal de Arganil entrevistou um ancião que foi mercador, vendia as colheres de pau, o artesanato típico das aldeias à volta de Coja e dizia esse ancião que era um homem muito viajado, conhecedor de muito mundo e que tinha viajado até Cantanhede que fica no fim do mundo. Fiquei de tal modo deliciado, que nunca mais me esqueci daquela entrevista! Não há dúvida que o mundo é do tamanho do homem. Ele pode ser grande, imenso como o de Stephen Hawking ou terminar no fim duma qualquer rua pequenina!...
Também abunda por aí, cada vez mais, um outro tipo de turista, daqueles à António Variações, que só estão bem onde não estão, são eternos insatisfeitos e desligados de tudo o que possa ser cultura ou conhecimento. Esses nada vêm, por nada se interessam, em nada se engrandecem e nada acrescem com a sua presença.
Eles viajam geralmente em pequenos grupos, saem à pressa do avião, quase atropelam os outros passageiros na ânsia de se despacharem, apanham o "transfere", mal desfazem as malas e correm para debaixo do sol, espojam-se nas espreguiçadeiras, besuntam-se de bronzeador, bebem muito, torram ao sol para fazerem inveja quando regressarem e, à noite, invariavelmente, vão às lúgubres discotecas, todas iguais e qualquer parte do mundo, tornam a beber muito, ensurdecem com a música da moda, abanam o "capacete" e alguns chegam até a "curtir" desinibidamente com a "cor local" e, no final da estadia atulham apressadamente as malas com roupa suja e regressam "torrados" e com cara de anjinhos.

Uma coisa importa-lhes sim! Encher o passaporte com os carimbos das alfândegas dos locais visitados, única forma de comprovar que foram lá, "embora não tenham estado lá!... Coitados!"
São geralmente pobres de espírito e riquíssimos de bolsa!
Não resisto à transcrição de mais um trecho, da citada obra: "Um quarto com vista", pag. 65, pela sua actualidade, apesar de ter sido escrito no século passado, mais precisamente, em 1901 (...) «Se não me considerar rude, nós os residentes às vezes temos muita pena dos pobres turistas, levados como um embrulho de Veneza para Florença, de Florença para Roma, vivendo como rebanhos em pensões ou hotéis, totalmente inconscientes de qualquer coisa que não esteja no Baedecker, e com a única ansiedade de ter «efeito» ou «passado» e de seguir para qualquer outro sítio. O resultado é misturarem cidades, rios, palácios numa confusão inextricável. Sabe aquela da rapariga americana no Punch, que pergunta: «Papá, o que é que nós vimos em Roma?» E o pai responde: «Olha lá, Roma é aquele sítio onde vimos um cão amarelo, não é?». Isto é que é viajar para si. Ah, ah, ah!»
Não há dúvida! Estou rendido!: «...é não só melhor, sendo mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus»; Por isso, para ele, Pessoa, e também para muitas excepcionais pessoas: «Uma vista breve do campo, por cima dum muro dos arredores, libertava-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro...» Fernando Pessoa in: "Livro Do Desassossego" pag. 86; «Do meu quarto andar sobre o infinito, no plausível infinito da tarde que acontece, à janela para o começo das estrelas, meus sonhos vão por acordo de ritmo com distância exposta para as viagens aos países incógnitos ou supostos ou somente impossíveis» Fernando Pessoa in: "Livro Do Desassossego" pag. 193;
Por tudo quanto ficou dito e por tudo quanto felizmente vivenciei, tenho para mim, que se não conseguirmos "viajar", se não conseguirmos ser "livres" na nossa própria mente, podemos acumular muitas milhas aéreas inutilmente..., dá-me razão o pensamento de Stephen Hawking: “Apesar de eu não poder me movimentar e ter que falar através de um computador, em minha mente sou livre.” Ele "viajou" até onde nenhum outro humano ousou...
Pelo menos, os Japoneses, regressam carregadinhos de fotografias para mais tarde recordarem, estes...nem a isso se prestam! Tadinhos!...
Não há dúvida! Estou rendido!: "...é não só melhor, sendo mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus";
Mas..., a cereja em cima do bolo é sonhar com Bordéus e, por fim..., desembarcar em Bordéus!

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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