Francisco Moita Flores: A língua portuguesa «é a maior riqueza que entregámos ao mundo, pois não há um único fuso horário onde não se diga “amo-te” ou “tenho saudades tuas”»

Francisco Moita Flores, autor de obras que já ascenderam à categoria de clássicos da literatura portuguesa como «Mataram o Sidónio!», investigador e antigo inspector da Polícia Judiciária, foi o convidado da mais recente sessão das 5as de Leitura, realizada a 15 de fevereiro no Auditório Municipal.
Num serão literário conduzido pelo vereador da Educação, Nuno Gonçalves, a quem coube também a apresentação do escritor «com uma vida de uma riqueza incomum», Moita Flores deu uma lição de História especial.
«Gosto de ir à História invisível, a que não é ensinada nas escolas, não é discutida, não é contada», explicou, antes de falar sobre D. Manuel II, o «puto de 18 anos, sem preocupações políticas porque, sendo segundo filho, não era provável que viesse a ocupar o trono; o miúdo que queria ir para a Escola Naval e que viu a sua vida desgraçada ao tornar-se, por paradoxo que pareça, rei, depois de ter visto morrer o seu pai, D. Carlos, e o irmão, D. Luís Filipe», primeiro na linha de sucessão da Dinastia de Bragança. É a “história invisível” desse jovem, que se vê obrigado a procurar noiva e a assumir um reino período de convulsões, que Moita Flores conta em «O Mensageiro do Rei», livro que marca trinta e cinco anos de carreira literária do autor.
«Ao longo deste meu caminho feito de palavras escrevi 21 romances, 22 séries de televisão, três telenovelas, nove filmes e oito peças de teatro», elencou.
«Quis, neste livro, juntar tudo isso: o romance, o ritmo das gravações, os diálogos teatralizados», resumiu. «A história é sempre a mesma, claro, a do romance entre D. Manuel II e a atriz francesa Gaby Desly, a deusa que a República, de França, lhe deu, depois da monarquia inglesa lhe ter negado a princesa que estava destinada ao seu irmão», contou. A propósito deste episódio, Moita Flores partilhou com os presentes a sua leitura da chegada da I República.
«Não foi uma revolução, foi um piparote. A História também se faz de acasos e, no nosso, a Monarquia caiu porque o povo pensou que se rendia quando, afinal, quem se rendia era o Embaixador alemão, que queria afastar-se daquela confusão e apareceu agitando um lenço "branco», sublinhou. Mas nem todas as datas históricas são fruto de equívocos e Moita Flores não escondeu a indignação perante a abolição, temporária, do feriado de 1 de Dezembro.
«Não fosse o 1 de Dezembro de 1640 e a nossa língua seria como o basco ou o galego. Mas é, hoje, a maior riqueza que entregámos ao mundo, pois não há um único fuso horário onde não se diga “amo-te” ou “tenho saudades tuas”», frisou, considerando que «quiseram assassinar o momento libertador da Língua Portuguesa». Para a continuar a honrar, Moita Flores revelou que já está a trabalhar num novo livro, o seu primeiro romance policial, passado noutro momento determinante da vida do país, o ano de 1937. «Tem-me dado água pela barba», confessou.
A dias de completar 65 anos, Moita Flores assumiu-se como um escritor e um homem realizado. «Se fechar os olhos, não tenham pena de mim. Como o Gabriel Garcia Marques, confesso que vivi. Vivi amores, paixões, tudo intensamente e com olhos de ver, de olhar para as coisas e de gostar delas e das mais de mil personagens que me habitaram até agora», concluiu.
A sessão das 5as de Leitura, que contou com a actuação de Ana Carina Sousa, aluna do Conservatório de Música David de Sousa, em flauta transversal, terminou com a habitual sessão de autógrafos e um convívio intimista entre escritor e leitores, à volta de chá de limonete.

 

António Manuel Ribeiro é o próximo convidado

A 22 de fevereiro, pelas 21h30, António Manuel Ribeiro, músico, cantor, poeta e líder da banda portuguesa de rock UHF, apresenta, na Biblioteca Municipal, juntamente com a jornalista Carolina Reis, «És meu, disse ela», uma obra que conta a história, tão mirabolante quanto verdadeira, do pesadelo que o músico viveu entre 2003 e 2012 quando foi alvo de stalking, naquele que viria a ser um dos primeiros casos a ser conhecidos em Portugal e o primeiro a ser julgado.

 

 

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