A importância da pobreza na tua saúde mental

Recordo-me de na minha infância crescer numa aldeia, em que tudo se aproveitava, os recursos vinham da terra e o destino era quase determinado pelas condições climáticas. O clima permitia ou inibia a existência de mais ou menos recursos retirados da terra, mais ou menos saúde dos animais que complementavam a alimentação.
Havia um único telefone para a comunidade, uma única televisão no ponto de encontro. Assim era a vida no final dos anos 70, início dos anos 80 do século passado para alguns de nós.
Os estudos da quarta classe eram então a escolaridade obrigatória, não querendo dizer que todos a fizessem. Começar a trabalhar por volta dos 10 anos era mais do que necessário.
Portugal evoluiu, avançou, afastou-se desta imagem, mas tal como um elástico que estica, se uma ponta se aproxima de um determinado objetivo, a ponta que está ancorada fica cada vez mais longe do mesmo, até que o elástico parte, mais ou menos a meio. Uma ponta segue o seu caminho, a outra fica pendurada, abandonada.
Assim é o ciclo da pobreza. Se por um lado temos hoje mais pessoas com mais dinheiro, temos por outro lado muitas pessoas em risco de pobreza extrema, ancoradas, longe de um destino. Estima-se que um em cada 5 portugueses vive em situação de pobreza ou exclusão social, ou seja, 20% da população, ou seja, 2.037 milhões de pessoas.
Durante o pico da pandemia Covid-19, 400.000 pessoas em Portugal terão caído abaixo do limiar da pobreza. Portugal é um dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza, podendo demorar até 5 gerações.
A saúde psicológica é impactada pelas condições sociais, ambientais e económicas em que os indivíduos nascem, crescem, trabalham e envelhecem, sabendo que a experiência da pobreza influencia a maneira como os indivíduos pensam, sentem e agem. As dificuldades financeiras afetam a capacidade de tomar decisões, influenciam a auto-critica e a capacidade de resolver problemas, têm impacto nas emoções, na motivação e no comportamento.
A pobreza é uma experiência que qualquer pessoa pode passar durante a sua vida e que vai para além da mera ausência de recursos materiais. Tem que ver também com a escassez de educação, competências e experiências pessoais.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses considera a pobreza como um dos principais desafios societais para os quais tem de contribuir. Lançou no dia 24 de Junho a campanha “. Final à Pobreza” que pode e deve ser consultada por cada um de nós em www.finalapobreza.pt. 
Trata-se de um sítio e de uma campanha que pretende divulgar e receber recursos e contributos que permitam influenciar positivamente as políticas públicas através das ações individuais e coletivas de cada um de nós. Nunca queira ser pobre, pela sua saúde. Um abraço.

(PAULO CUNHA - Psicólogo e Coordenador da Mental School)

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