A magia dos livros

Nota prévia: Este texto vai escrito para todos os meninos ainda pequeninos, preferencialmente, os compreendidos na facha das idades entre os oito e os oitenta anos.
Sempre vivi rodeado por livros. A curiosidade transformada em gosto por eles despertou-ma inicialmente o meu pai, alguém que, para a época e para as circunstâncias, era um leitor ávido e esclarecido -sei-o agora. Esse gosto foi uma das maiores heranças que ele me deixou –foi, a par com o amor que me deu, a maior, a mais bela e a mais valiosa de todas!
Quando era ainda muito pequeno, a curiosidade levava-me a pegar naquele objecto que tanto o fascinava – eu ainda não sabia o que era. Nesse objecto, para além das capas coloridas e, por vezes, muito apelativas, não havia mais do que folhas, seguidas de folhas, preenchidas com risquinhos sem graça nem sentido. Tal facto, somente adensava ainda mais a minha curiosidade, porque o meu pai parecia que desaparecia dentro dele…, era necessário abaná-lo para ele regressar e depois…, sem eu perceber porquê, desinteressava-se dele e substituía-o por outro, às vezes, com capas mais feias e…, tudo se repetia novamente. Tal facto adensava ainda mais o mistério -o que é que havia naquelas folhas, naqueles papeis que tanto o fascinava?
Um dia, ele apareceu com um livro com uma capa com o desenho de um gato a caminhar em pé e calçado com umas botas de cano alto. Disse-me que aquele livro era meu. Primeiro deixou-me vê-lo. Era diferente dos outros porque tinha nas folhas interiores desenhos muito coloridos e, tinha também, os tais risquinhos intrigantes arrumados duma forma mais engaçada, embora fossem maiores, mas em menor quantidade. Depois começou a falar e disse-me que estava a dizer-me o que aqueles risquinhos diziam. Fiquei encantado a escutá-lo. Pedi-lhe para repetir e repetir e repetir…, e ele dizia sempre as mesmas palavras, não falhava uma, isso adensava ainda mais a minha curiosidade, –por fim, também eu já as sabia de cor -mas…, o mundo caiu-me em cima quando a minha mãe abriu o livro e começou a dizer-me as mesmíssimas palavras pela mesma ordem e com a mesma entoação. Já não me lembro, mas…, certamente…, com carinho e cuidado, ela amparou o meu queixo e fechou a minha boca antes de começar a explicar--me que aqueles risquinhos juntos da forma correcta formavam palavras e as palavras formavam frases e, papapa…, papapa…, papapa…
Na minha cabeça tudo se resumiu a que aqueles risquinhos falavam e, eu também queria aprender a falar com eles. Certamente, já em desespero, ou empanturrado, ou enjoado com a fala daquele livro, o meu pai apareceu com outro livro novo e completamente diferente, quer nos desenhos, quer nas palavras… (começou fazer-se luz no meu espírito…, agora era eu que quando me empanturrava, ou me enjoava…, pedia um livro novo…) Eu mal sabia que para aprender a falar com aqueles risquinhos era preciso muito esforço…, seria uma caminhada muito grande… Mal sabia que também poderia pôr esses risquinhos a falarem por mim; que os podia escrever numa folha de papel, fechar essa folha dentro de um envelope e nesse envelope dizer com risquinhos para irem ter com os meus avós e que semanas depois, outro envelope chegaria a casa dos meus pais com uma folha de papel cheia de risquinhos que respondiam com rigor àquilo que na outra folha os risquinhos disseram. Não podia imaginar que estes risquinhos iriam ser tão importantes na minha vida e que me iam ensinar tantas coisas…, tantas coisas… -quase tudo aquilo que sei. Não podia imaginar que iria ler e escrever milhares, e milhares, e milhares, e milhares…, “googles” de risquinhos... Hoje posso dizer que tem sido uma aventura maravilhosa…
É talvez por isso que ainda hoje olho fascinado para tantos outros risquinhos cujos significados infelizmente não conheço, tais como os hieróglifos e tantos outros risquinhos diferentes esculpidos há milhares de anos nas rijas folhas de pedra, nas folhas de barro cozidos e endurecidos, nas folhas ressequidas dos papiros pincelados, nas ductilíssimas e valiosas folhas de ouro à força cunhados e noutros igualmente manifestados no mais que quer que seja. Todos esses risquinhos manifestam ciências, vivências, inquietações de pessoas de carne e ossos como eu, como nós, perpetuadas no tempo que escapou à lei do esquecimento do inclemente e vingativo tempo.
Já cá estão muitos meninos índigo e muitos meninos de cristal e muitos outros meninos mais evoluídos no futuro surgirão (dizem que esses meninos do longínquo futuro não necessitarão de aprender a falar com os risquinhos porque já nascerão com esse conhecimento, com essa sabedoria…, mas…, mas apesar de tudo, também eles se encantarão com os risquinhos dos faraós e os outros risquinhos muito anteriores, e com os de Séneca, e com os de Descartes, e com os actuais e com outros já futuros que igualmente tanto falarão… Esta é a magia dos risquinhos que, para que não se percam, e para que escapem à lei do esquecimento do inclemente e vingativo tempo, definitivamente, são ordeira e ordenadamente presos ou guardados em livros, em e-books, em ficheiros “pdf” e noutros de variados tipos, arrumados e guardados tanto nas velhinhas bibliotecas, como nos discos rígidos, como nas “pens”, como nas nuvens, e como sei lá em quê mais…, quem saberá?... Ao certo apenas sei que eles, os maravilhosos risquinhos, são pontes para trás e para a frente no tempo. Um dia…, lá muito longe…, naquele tempo que hoje chamamos futuro longínquo, esta factura do débito deste café que tomei durante esta divagação mental, exercerá um fascínio tão grande quanto aqueles hieróglifos naquela frase prosaica, escrita numa telha de barro cozido, que dizia: ”Ontem não te vi em Babilónia” e que, milhares de anos depois, tanto fascinou o escritor António Lobo Antunes. Esta é a magia dos livros, da escrita, dos tais risquinhos… que fizeram muito daquilo que eu sou, e que fuiiiiiiii …

Figueira da Foz, 5 de Abril de 2021.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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