A pedra com dois corações

Tenho uma grande amiga que é uma rocha, é uma rocha verdadeira. Ela é de todas as minhas amizades a mais improvável e é também a mais sólida e a mais paciente. Ela é várias vezes maior do que eu. Não sei precisar quantas vezes é, mas também não é importante sabê-lo, porque todas as amizades verdadeiras têm um único tamanho, são todas grandes. Nas amizades verdadeiras só existe o tamanho grande. São simplesmente assim as amizades verdadeiras, elas são grandes!
Todas as amizades verdadeiras têm algo único dos respectivos amizados (esta palavra não existia, inventámo-la para nós e ficou-nos para sempre). Somos amizados há quarenta e seis anos. É muito comum existirem palavras únicas inventadas pelos amizados nas grandes grandes amizades porque o vocabulário existente faz-se insuficiente, faz-se demaisiado incompleto para tão magnífico e indizível sentimento.
Podemos pôr um pouco de nós em tudo que quisermos. De mim, de meu, e só para nós, no dia em que nos amizámos pus-lhe um coração humano e pus-lhe também um nome.
O nome não teria de ser obrigatoriamente um nome humano, mas também lhe pus um nome humano, chamei-lhe Gi, o diminutivo de Angelina, porque ela surgiu-me como um anjinho e ela chama-me desde então Irmãodecarne (mais outra palavra só nossa).
Não nos teríamos amizados se ela só tivesse um coração de pedra. A mim, ela ainda não me pôs um coração de pedra porque eu ainda não lidava bem com um só, ainda não conhecia sequer o meu único coração, quanto mais dois..., mas ela prometeu-me que quando eu crescesse merecida e suficientemente dar-me-ia um justo coração de pedra. Ainda não mo deu, apesar de já me ter ensinado tanto dela, apesar de me ter ensinado tanto dos corações de pedra e não só.
Além de minha grande confidente, ela tem sido minha professora, tem-me ensinado sobre o invisível ao olhar, o tal essencial de que nos falou o Príncipezinho. Ela também ensinou-me sobre os elementais, sobre a memória da água, sobre as ondinas, sobre os tritões, sobre as ninfas e também me ensinou muito sobre os protectores das florestas, sobre fadas, sobre gnomos, sobre a mãe Gaia e tantas outras coisas que eu julgava que eram somente fantasias...
Pergunto-lhe frequentemente quando é que merecerei também o meu coração de pedra, tem-me dito que o terei , mas... não já, mas... não já!
Prometo-vos que continuarei a contar-vos sobre esta pedra com dois corações.
(...)

Walter Ramalhete.

Figueira da Foz, 18 de Janeiro de 2023.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anteriores ao actual (Des)Acordo Ortográfico.
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