A pedra com dois corações (II)

- Irmãodecarne vens a ofegar! Que pressa é essa?
- Já me conheces há muitos anos, sou mesmo assim, para mim é tudo a "cento e cem", sou aquele correcorre inveterado (correcorre é outra palavra só nossa). Olha Gi, não vais acreditar naquilo que te venho dizer, os meus leitores estão muito curiosos acerca da nossa amizade, convenhamos que não há memória duma amizade da carne com uma pedra e, ainda para mais, uma pedra com dois corações, tudo isto suscita muita curiosidade.
- Oh! Não acredito! Tu és louco! Falaste de mim? Disseste onde estou? Disseste que sou a primeira pedra que a maré cheia não afoga a norte da esplanada do Tucano na Figueira da Foz?
- Parvinha! Não disse, mas tu acabaste de dizer-lhes! Portanto, não me venhas acusar de ser uma boca rota. Olha, queres saber? Fizeste bem! Fizeste muito bem! A nossa amizade é demasiado linda e grande para ficar meia submersa e meia destapada, ela é-nos tudo ou nada e, como entre nós o nada não existe, ela é toda destapada. Temos, como é óbvio, os nossos segredos, mas nenhum deles é a nossa amizade, portanto, prepara-te para veres muito de nós divulgado. Não há como evitá-lo.
- Entendo! Olha, acho que até vai ser giro. Vai em frente, embora eu com toda a certeza ache que me deixarei ficar por aqui, é muito mais seguro e cómodo para mim, aliás sempre foi. Sabes que sempre gostei dos segundos sentidos, sabes que gosto de dizer coisas naquilo que não disse, mas que fica indubitavelmente dito mesmo assim e, sabes que também gosto dos segundos sentidos e do sem sentido naquilo que digo e, gosto do consentido e que nem sempre gosto daquilo que vou sentindo, porque também tenho sentimentos. Quem diria, quem diria... sou uma pedra com dois corações, com um nome humano, com sentimentos, sou amizada com um Irmãodecarne, ah! e bem a propósito, brincadeiras à parte, tenho uma memória de pedra, mas isto vem-me de família, diria à tua maneira, que me está nos genes, pois os teus ancestrais, por não confiarem na memória da carne, gravavam as suas memórias na memória de pedra dos meus ancestrais que as guardaram até hoje, a ponto de, envergonhadamente agora lhes chamardes arte rupestre. Não é arte! Não é arte não, é escrita, eram recados avoengos para memória futura e, nós de boa memória cumpridora, ainda hoje vos lembramos deles. Tem graça, por estar aqui a falar da memória, tenho memórias ancestrais de há milhões de anos quando, ainda muito tenrinha, os dinossauros me comprimiram e me marcaram com as pegadas das suas caminhadas sobre mim. Ainda te digo mais, aqui ao lado, na Serra da Boa Viagem ainda existe, mais lá para cima, uma parentela minha que tem nos seus costados algumas amostras bem vivas das marcas dessas pegadas. Se julgas que sempre vi o sol como agora vejo e que sempre me regalei com as cócegas do amoroso vento, tal como agora me regalo, estás muito enganado, porque há milhares de anos vivi submersa neste mar, ora leão bravo a rugir e a morder-me até me desgastar, ora cordeiro manso a balançar a balançar até me nausear. Se julgas que a água por ser mansa é mole, estás muito enganado, ela é dura, mole é a pedra que ela com o seu constante bater fura! Essas areias que pisas e o mar lava constantemente são preciosidades minhas desgastadas. Chegará o dia em que criancinhas inocentes me moldarão em pequeninos castelos com as suas graciosas mãozinhas, podes crer! Já agora, lembras-te que te contei... Já sabia que não te lembras, mas não faz mal, é próprio da tua memória de carne de passarinho, já deves estar a pensar noutra coisa. Arre! Até o frágil papel tem melhor memória do que a presunçosa carne. Depois conto-te!
- Prometo-vos que continuarei a contar-vos sobre esta pedra com dois corações.
(...)

Walter Ramalhete.


Figueira da Foz, 21 de Janeiro de 2023.
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