Ainda sou um sonhador!

Nero que se tinha por muito poderoso e importante também morreu. Nem o sol, nem nada na natureza assinalou a sua morte, foi-lhes completamente indiferente.
Amargurou o seu cão fiel, cujo nome a história não registou. Regozijou-se a criada que teve dispensa dos seus afazeres nocturnos e, aproveitou-a deixando a porta do seu quarto apenas encostada como, a tempo, combinara com o único disponível, mesmo assim, foi-lhe de grande e inesquecível prazer aquela noite. Também foi prorrogada por uns dias a agonia do galo destinado ao jantar de Nero, dias depois, outros o comeram.
Com Napoleão, Cleópatra, Alexandre – tido por grande apenas na terra- Pol Pot o Khmer Vermelho e com todos os restantes mortais se passou o mesmo, tanto no seu nascimento como na sua morte, nada lhes assinalaram o sol e a natureza, não perderam nem ganharam os dias um único milésimo de segundo, nenhuma onda do mar ficou por se cumprir, nem o vento se agitou mais por isso. Todos os mortais lhes são absolutamente indiferentes. Nesse plano há justiça na terra!
Os Alexandres – que se têm por grandes na terra- repetem os mesmos erros, pensam que podem conquistar a respeitabilidade e a imortalidade com a morte de inocentes peões e com as guerras e com o estabelecimento de novas fronteiras e com a formação de grandes impérios, mas felizmente não podem. Eles apenas serão umas anónimas e tristes formiguinhas. Os Alexandres do nosso tempo também são irrelevantes, apesar de conseguirem fazer à humanidade mais e pior mal em menos tempo.
Fazia-lhes muito bem ler a Metamorfose de Franz Kafka: «Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto».
Gregor Samsa transformou-se num objecto repugnante e foi obrigado a esconder-se no interior dos seus aposentos e, a pouco a pouco sob as exigências da vida prática, a família foi-lhe dando cada vez menos atenção, até que um dia, no termo de um episódio trágico, a sua irmã declara que têm de deixar de reconhecer Gregor como um dos seus.
Quando Gregor morreu, finalmente aliviados: «(…) Depois, o senhor Samsa (pai de Gregor) voltando-se para elas (mulher e filha) na sua cadeira de braços, fitou-as durante um momento em silêncio.
- Vamos, vamos! – exclamou ele, de repente. – Tudo isto é história passada! Já é tempo de começarem a dedicar-me um pouco de atenção.
Imediatamente, as mulheres correram para ele, beijaram-no e sentaram-se de novo à mesa, a fim de terminar as cartas.
Depois, saíram de casa juntos, coisa que não tinham podido fazer havia já vários meses, e apanharam um eléctrico que os levasse, de certo modo ao campo. Não havia outros passageiros no compartimento em que se sentaram, que estava quente e brilhante de sol. Recostados, com ar despreocupado, nos seus assentos, começaram a falar do futuro…»
Digo por outras palavras: - “Rei morto, rei posto!”
Também assim aconteceu com Nero, Napoleão, Cleópatra, Alexandre – tido por grande apenas na terra- Pol Pot o Khmer Vermelho e com todos os restantes mortais. Também assim acontecerá com os Alexandres dos nossos dias- que se têm por grandes na terra - sequiosos de riqueza, glória e poder. Se eu pudesse, obrigaria os patéticos Alexandres do nosso tempo a lerem a Metamorfose, fá-lo-ia na vã esperança que se fizesse luz naquelas cabeças e eles compreendessem que se trocassem as espadas e as ambições por pão, então sim, seriam para sempre lembrados e chorados por tão grande feito. Quem sabe se os dias ganhariam o tal milésimo de segundo ou, se as ondas do mar e o vento guardariam também um minuto em sua memória?
Que bom!, apesar de tudo, esses pequeninos Alexandres não conseguiram roubar-me o discernimento, nem a capacidade de sonhar…

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 6 de Maio de 2022.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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