As meninas foram à carreira ver o Tony

Como elas, nesta noite de São João, foram milhares de pessoas atraídas pelo Tony, a grande estrela do cartaz das festas da cidade neste ano de 2022.
Falhou a organização que, insensível, não se lembrou que existem pessoas com mobilidade reduzida e também sem mobilidade nenhuma, mas que sonham, sentem e têm uma vontade indomável de viver, dizia que falhou a organização, porque não acautelou o parqueamento, nem o acesso, nem alguns lugares para estes desafortunados cidadãos.
Mas…, há anjos e fadas na terra, anjos e fadas disfarçados de pessoas normais e, estas duas meninas (vítimas das traições da vida à vida) têm também um séquito de anjos e fadas atentos e que tudo fazem para proverem às suas necessidades e aos seus sonhos (bem-hajam tais anjos e fadas, desejo que nas suas contas do bom e do bem fazer lhes seja creditado o quádruplo daquilo que de bom e bem têm feito).
Estas meninas, são irmãs, estão sozinhas no mundo, já não têm pais e também não têm a idade mental correspondente à idade cronológica que os seus corpos desgastados e doloridos registam. Elas são, de facto, mentalmente ainda meninas e inocentes. Elas não sabem desta guerra, nem sabem do mal que os homens são capazes, elas apenas sabem de cor e salteado as letras das canções do Tony. Elas idolatram o Tony, têm o quarto decorado com fotos dele e também sabem que têm de pagar uma promessa, têm de rezar um terço todos os dias 13 de cada mês até ao fim deste ano porque: uma das suas fadas (fora do seu horário de trabalho) levou-as para verem o espectáculo; ela conseguiu arranjar um estacionamento num espaço onde parecia impossível o carro caber, mas (parece um milagre) o carro coube; também não choveu durante a noite e…, se soubessem, também teriam pedido à Senhora de Fátima que lembrasse a organização da festa para acautelar os direitos das pessoas com deficiências e, consequentemente, teriam conseguido ficar próximo do seu idolatrado Tony, mas…, como não há maldade nem rancor no seus corações, de longe, de muito longe, assistiram ao concerto e, de longe, de muito longe, cantaram todas músicas e, com um abraço apertado, muito apertado, agradeceram à sua fada por lhes ter proporcionado os momentos mais felizes das suas vidas.
Confessou-me aquela fada que aqueles abracinhos transmitiram-lhe tanta felicidade, mas mesmo tanta felicidade, que quatro vezes se fosse possível, repetiria aquela noite.
Que grande pena sinto por elas não saberem desta guerra nem da malvadez dos homens, porque se soubessem…, certamente, com a mesma fé pediriam àquela Senhora que impedisse esta guerra selvagem e absurda.
Não sei porquê, mas pressinto que elas teriam sido atendidas, tal é a pureza e a inocência dos seus corações.
Walter Ramalhete.

Figueira da Foz, noite de São João.

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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