As palavras!

Sorvo vida através das palavras porque elas também têm muitas vidas dentro delas! Quanto mais as escrevo, mais elas se me revelam diferentes e com audazes e misteriosos sentidos. Uma única palavra pode ter várias vidas, várias caras, vários significados, e até pode realizar muitos improváveis casamentos com muitas outras. Quanto mais as uso e abuso delas, mais se desnudam, mais brincam comigo, mais me tentam fintar, mais se escondem aqui para aparecerem completamente transfiguradas ali, tal e qual as criancinhas marotas, irrequietas e irreverentes.
Elas têm magia, têm a força de mil caras, carinhas, caretas e carantonhas, elas têm a macieza do branco algodão e, muitas vezes são tecidas da filigrana amarela do ouro puro, algumas são translúcidas e outras tão escuras como a traiçoeira morte, outras… outras são altivas, têm a altivez pendurada na ponta do nariz e também as há baixas, duma baixeza tão porca que só com elas se pode dizer aquilo que realmente se quer dizer. Já me aconteceu escrever a palavra “SIM” e ela significar um absoluto “NÃO”. Também já me aconteceu escrever a palavra “NÃO” e ela, contrariamente, significar um rotundo “SIM”.
Por vezes, as palavras que nos aparecem feias, nem sempre o são, podem ser lindas e as que nos aparecem lindas nem sempre são assim tão lindas e nem sempre são de inconfundível precisão. Fico extasiado, perco muitas vezes o fôlego quando elas com a sua magia bailam à frente dos meus olhos no palco das frases em movimentos ondeantes e subtis, quando elas bailam com jeitos e trejeitos, passos e compassos que ganham significantes inimagináveis acabando por dizerem precisamente aquilo que ali não parece estar escrito, mas que está assim precisamente dito. Nessas alturas vergo-me, rendo-me, caio de joelhos, ergo os braços e venero a poesia que acabaram de bailar para mim.
As palavras são caminhos, são meios, são voos, acidentes doces e até feridas azedas, são macias ou ásperas, são sonhos, encantamentos ou horrores, podem ser tantas numa só, ou uma em tantas ao mesmo tempo e, mesmo assim, às vezes são incapazes de transbordarem o que sinto e, por vezes, vejo-me impotente para verter o tanto que uma só pode dizer, apesar de haver ainda tantas palavras por nascer…
Sinto que cresço na medida em que elas crescem e se revelam cada vez mais em mim. Sinto-me como um caçador de borboletas num mundo de encantamento feito de um rendilhado de palavras. O sublime dizem-no as certas no momento certo, sejam elas de algodão.

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