Contigo eu falo (-me)!

A memória é o fio único do novelo da vida que no seu tempo, ao desenrolar-se, vai tecendo o bordado entrelaçado com que ela se desenha, mas… como no fim, no último instante da nossa vida não temos tempo, ensejo ou sequer força para rematar o bordado com o devido nó, esse mesmo tempo, pega nessa pontinha solta e começa a puxá-la e a desmanchar o bordado até quase, ou até mesmo não restar memória dele.
Este pensamento, agora também já memória no bordado da minha vida, ocorreu-me quando de soslaio e duma mesa relativamente distanciada vi lágrimas grossas a rolarem pela cara abaixo duma colega universitária que em desespero perguntava ao seu sabujo abusador: << - É só isto que eles veem em mim?>
Mentalmente intrometi-me naquela dramática conversa e saiu-me assim aquela memória…
Contigo eu falo (-me)!
Não me saem da memória aquelas lágrimas grossas de desespero e tristeza a rolarem pela tua face abaixo, enquanto as tuas mãos desfalecidas com a dor que te consumia, pareciam quererem envolver o teu corpo lindo de transbordante juventude, perfeito e sedutor, e a tua voz trémula, já nula de luta, perguntava a ninguém: << - É só isto que eles veem em mim?>>
Ainda mais triste que tu, respondi-te: << - É! Quase, quase cem em cem, é!>>
Contigo eu falo!
É esse o drama das lindas borboletas, a quem secam a vida com um alfinete espetado que lhes rouba definitivamente a verdadeira beleza do inebriado voo cheio do esplendor da vida. Contigo eu falo! Sinto profundamente a solidão que prende na única que verdadeiramente não és, todas as outras que és em ti nos diferentes momentos e circunstâncias.
Contigo eu falo (-me)! Como te compreendo nas inúmeras Pessoas que és nesse único em que vos prendem e em que prendes também a paula maria dulcineia esperanças rosas tantas ofelinhas todas florindas desfolhadas por adivinhas lengalengas de "mal-me-queres-bem-me-queres" todas a baterem certas consoante a parte onde se comece a arengar.
Contigo eu falo (-me)! Tu és legitimamente todas elas e, até és inclusivamente essa Pessoa triste, severa, sem sorrisos, sem alegria, sem voo que vos oprime, castra, castiga, rouba e prende com esse maldito alfinete nesse mar turbulento de imobilismo, de frustrações e infelicidade.
Convosco eu falo (-me)! Voem os voos que vos fizerem felizes, eu bato as minhas asas de mil coloridos desejos, "borbolejo", na ponta da minha caneta neste infinito céu de papel branco, levado no vento azul da tinta libertadora da minha desassossegada mas feliz imaginação!
A vós me confesso assim!
Contigo eu falo!

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