Crónicas de tudo e de nada: Começar de novo (Conto)

Era uma daquelas manhãs frescas, com uma neblina cerrada que impedia o sol de aparecer, mas que deixava adivinhar um fantástico dia de Verão. O mar estava calmo e de cor indefinida. Nem verde, nem azul, nem cinzento. A maré a vazar deixava já adivinhar os penedos cobertos de limo verde.

Ana subiu a persiana do quarto, olhou o mar de todos os dias como se o visse pela primeira vez, espreguiçou-se, coçou a cabeça, voltou a espreguiçar-se e sorriu antecipando o prazer dos primeiros minutos do primeiro dia de férias, ainda sem planos, sem programa, sem outras intenções que não deixar arrastar o dia a seu bel-prazer.

Na véspera, ao despedir-se dos colegas e do chefe, no escritório da companhia de seguros onde trabalhava há quase cinco anos, Ana tinha prometido que desligava os botões todos quando saísse a porta do escritório. E era isso que tinha tentado fazer alterando desde logo a sua rotina de voltar para casa. Em vez da habitual corrida até ao carro, carteira atirada para o banco de trás, chave na ignição, cinto de segurança apertado, breve paragem na mercearia do Sr. Arménio para comprar leite ou pão ou alguma fruta que desse ao frugal jantar um ar mais civilizado, Ana percorreu sem pressa a distância que a separava do seu pequeno Renault, olhou para o velho carro como se o visse pela primeira vez, e pela primeira vez pensou que se calhar estava na altura de o trocar. Despiu o blazer, sentou-se e ligou o rádio. A TSF, onde o rádio do carro estava permanentemente sintonizado, transmitia mais um debate sério, sobre a economia nacional, a crise, o governo e o desgoverno do país, como de costume com algumas intervenções sérias e de qualidade e outras completamente idiotas feitas por gente que apenas gosta de se ouvir. Mudou de estação. Hoje não! Hoje não queria ouvir desgraças, nem baboseiras, queria música, alegre de preferência, música que a fizesse sentir viva! Afinal, era o seu primeiro dia de férias depois de três anos em que, por vontade própria, se tinha devotado ao trabalho como uma louca, começando cedo e acabando tarde, esquecendo fins-de-semana, evitando feriados, fazendo do trabalho a sua droga ou a sua terapia. Três anos em que tudo o que queria era sentir-se fisicamente cansada e mentalmente vazia para que não pudesse recordar aquela Sexta-feira de Julho em que a sua vida parecia ter desmoronado.
Para provar a si própria que alguma coisa tinha mudado, Ana tinha trocado a mercearia da esquina pelo supermercado onde tinha deambulado entre os legumes e as frutas, comprado costeletas de borrego em vez de comida pré-cozinhada e até um pedacinho de queijo roquefort, o seu favorito que deixava sempre o Ricardo de nariz torcido enquanto dizia “Isso está cheio de fungos!”.

Ana continuava a fitar o horizonte da janela do seu quarto. O sol começava a romper por entre a neblina. Suspirou, inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos. Ricardo! Passaram três anos. Três anos de raiva, de negação, de dor, de saudade, de… aceitação?! Era isso que lhe estava a acontecer?! Estaria finalmente a aceitar a perda do homem por quem se tinha apaixonado num ápice e que num ápice tinha desaparecido da sua vida? Tinha sido muito bom o tempo que passaram juntos. Despreocupados, alegres, sonhadores, discutiam projectos mirabolantes, imaginavam aventuras radicais, ansiavam por viagens fantásticas. Curioso! Nunca tinham feito planos para uma vida a dois, como uma família. Só agora pensava nisso. Se calhar não estavam mesmo destinados a ficar juntos.

Mas isso era passado. Guardaria as boas recordações a sete chaves, como um tesouro, e libertá-las-ia sem dor sempre que sentisse saudades. Pela primeira vez pensou que saudade não é doença, nem amargura. Saudade é um sentimento bom, que só se tem das coisas boas, das situações ou das pessoas que mereceram o nosso afecto, o nosso carinho, o nosso amor.

Hoje estava decidida a dar a si própria uma nova oportunidade.
Tinha 25 anos. Precisava de começar de novo.


AMC/2018

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