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Crónicas de tudo e de nada: Compasso de espera ou oportunidade perdida?

Eu não sou uma católica lá muito “católica”. Sou católica por tradição e educação - fui baptizada, frequentei a catequese, fiz a Comunhão Solene, casei pela Igreja, enfim, segui o ritual que de mim era esperado, nascida numa família católica. Mas sou uma pessoa crente por natureza e acompanho com interesse o desenrolar dos avanços e recuos da Igreja Católica.
Estava em viagem na Califórnia, em Março de 2013, durante os dias do Conclave que transformou o Cardeal Bergoglio em Papa Francisco e segui toda a reunião magna com grande interesse, na esperança de ver eleito um Papa mais terra-a-terra, menos elitista, mais aberto a mudanças. E o Papa Francisco não me desiludiu desde o princípio. Sorriso genuíno, palavras sábias, apurado senso comum, comunicação fácil, atitudes humildes e de grande nobreza, fizeram com que eu, e mais uns bons milhões de pessoas, sentíssemos que tinha chegado a hora de a Igreja Católica dar passos mais seguros em direcção a uma Igreja mais aberta, mais actual, mais consentânea com a equidade que se pretende na sociedade contemporânea.
Mas agora a coisa não correu bem. Com o apelo feito pelos bispos sul-americanos face à escassez de padres em muitas regiões do globo, nomeadamente na Amazónia, os temas do celibato obrigatório dos padres e da abertura para a ordenação de mulheres tiveram agora uma oportunidade de ouro para serem finalmente enfrentados com coragem e determinação. O Papa Francisco preferiu ignorar o apelo. Tenho pena!
Pessoalmente sempre defendi que os padres deveriam ter a possibilidade de casar e ter a sua própria família, da mesma forma que defendo que as mulheres podem ser tão boas como os homens a ministrar os sacramentos da Igreja.
Comecemos pelos homens. Recuso-me a aceitar a justificação “oficial” de que os padres solteiros cuidam muito melhor dos seus paroquianos do que se tivessem que repartir essa tarefa com uma família. Primeiro porque entendo que o facto de terem família lhes daria uma experiência alargada, um conhecimento mais profundo do que é viver o quotidiano a comungar ideias, a respeitar espaços, a instituir e praticar disciplinas, a fazer concessões. Depois, porque os padres também não passam os dias inteiros a cuidar dos seus paroquianos, têm outras actividades – são professores, músicos, escritores, pintores, investigadores de arte, escuteiros, etc. Ou seja, tal qual como os homens casados que exercem uma profissão e têm que repartir o seu tempo entre a família e o trabalho.
O celibato deveria ser uma escolha e não uma obrigação!
E as mulheres, qual é a razão? Tradição? As mulheres que não “mereciam a honra” de ir à escola, que só podiam exercer determinadas profissões, que não tinham direito a voto, que não eram admitidas em muitos locais públicos, que não podiam ser eleitas, que não podiam trabalhar por turnos, e que hoje em dia são Presidentes, Primeiras-Ministras ou até Arcebispos na Igreja Evangélica, não podem chegar ao diaconado na Igreja Católica porquê?
A vocação de difundir a fé da Igreja Católica e a capacidade de ministrar os ensinamentos da Igreja não deveriam ser regidas por normas retrógradas de orientação sexista.
Confesso o meu desapontamento mas espero sinceramente que esta decisão não tenha sido um fechar definitivo desta porta, o que equivaleria a uma oportunidade perdida! No Papa Francisco deposito ainda a esperança de uma Igreja Católica mais aberta, mais activa, mais viva, mais alegre.

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