E os outros?

Aqueles seres silenciosos a quem a vida já roubou quase tudo? Aqueles que estão confinados num “lar” decorado apenas com as recordações inteiras da vida estraçalhada pelas dores…, pelos abandonos…, pelos dissabores e também pelos tesouros das alegrias guardadas como faróis espalhados pelo longo caminho já quase todo percorrido…
Esses são ainda pessoas!
Esses são ainda pessoas de sentimentos inteiros. São pessoas, agora também cheias de medos… Cheias de medos por si e pelos seus a quem já não podem valer nem proteger, mas que sabem estarem muito expostos a esse perigo que não compreendem. Eles também temem por si e pelos seus novos companheiros, agora também seus por inteiro, tanto no fortúnio como no infortúnio.
Eles vêem pela televisão o perigo que todos nós corremos -eles incluídos. Mas, eles nada podem fazer. De repente os seus mundos já reduzidos foram ainda mais reduzidos. Foram reduzidos ao espaço daquele seu novo lar de memórias. Uma ordem enclausurou-os. Depois daquela ordem ficaram isolados, por ordem da sua salvação. Isolados estão! Salvos não! Agora temem. Temem muito! Temem que os seus se exponham; temem que os seus morram; temem que aquele olhar, aquele contacto, aquele beijo tenha sido o último; temem que um dia o vírus seja levado lá para dentro e transforme aquela estufa (aquele lar de idosas memórias) numa câmara de morte certa; temem aquelas malditas folhas de excel -frias, indiferentes, cheias de “CRITÉRIOS” onde eles não cabem- se tornem nas suas sentenças de morte quando os médicos forem confrontados com a inadiável decisão de terem de escolher quem tentar salvar.
Eles temem, temem com muito acerto tudo isto…, temem que possa ser o fim. Temem que já não volte a haver mais um beijo, temem que já não volte a haver mais nenhum abraço, temem que já não volte a haver mais um olhar de olhos nos olhos…, temem poderem vir a morrer sozinhos no corredor dum hospital em dolorosa aflição… , temem, temem, temem … temem em compassivo e aflito silêncio de contida dignidade resignada.
Por tudo isto –eu que também já não caibo nos critérios da tal folha de excel pergunto: - e os outros? A esses quem bate palmas?

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