Excerto do conto : Uma lua cheia na noite escura (1ª parte)

(…) É pavoroso! Se me encontro sozinho, acabo por acordar aos gritos e aos berros, gesticulando, defendendo-me dos murros e dos pontapés a que igualmente respondo.
Assim que acordo desses pesadelos, levanto-me e vou imediatamente tomar banho para me livrar daquela transpiração peganhenta de dores e recordações más daquele inferno que já vivi aqui na terra.
Enquanto me banho e me ensaboo, enquanto me esfrego vigorosamente na tentativa e com a esperança que a água quente me liberte daquelas escorrências, ajo como se também estivesse a lavar o meu cérebro.
Ajo como se estivesse a lavar aquela cela com uma mangueira. Ajo como se lavasse aquele cárcere empurrando para um enorme ralo os horrores, as memórias, os sons, as palavras, os gritos, os berros, os pontapés, as bofetadas, as chapadas, os murros, as dores, os ais sufocados, as lágrimas bebidas mas nunca escorridas, os gritos interiores pela minha querida mãezinha para que me acudisse, para que me tirasse dali, que me acudisse no meu desespero impotente e me livrasse das garras daqueles algozes.
Ajo como se empurrasse com o jacto de água que sai da ponta da mangueira tudo e todas as excrescências para o bueiro que as devora e as faz desaparecer. Faço-o sempre. Faço-o repetidamente na esperança que vez após vez, uma após outra, uma a uma elas se vão perdendo, vão desaparecendo e vão aliviando e libertando a minha memória daqueles horrores.
Depois, com o corpo ainda a ferver, sai do banho e não se seca com a toalha, espera apenas que a água, a temperatura do corpo e os resquícios da memória se evaporem ou se volatilizem e, só depois, independentemente das horas que forem, é que ele vai fazer um café, vai fumar um cigarro, vai esfregar um bálsamo nos joelhos traumatizados e sempre doridos devido às horas, dias e até semanas passadas em pé durante as repetidas sessões da tortura do sono que lhe roubaram a saúde e a tranquilidade para sempre.
Se está acompanhado, ela, ciente daquilo que se está a passar, abraça-o carinhosamente, cicia-lhe palavras calmas entre beijos meigos para o despertar e para o libertar:
- « - Acorda! Acorda meu amor. Já passou. Não é nada. Foi apenas um pesadelo!»
Ele acorda sim! Mas ela está enganada, porque o sonho não passou, nem foi um simples pesadelo. É, isso sim, um grande e um eterno pesadelo! É um pesadelo que nunca mais passará! Não passou, nem passa consigo, estando ou não com ela, ou estando somente consigo, estando somente nele. Não passou nem passará com os seus camaradas que passaram pelo mesmo.
Ele apenas conheceu uma excepção e, mesmo assim, dúvida que não seja mentira…
Na véspera, entre cigarradas e muita cerveja, confessou-lhe o camarada Barreirinhas que o seu maior pesadelo era poder ser assaltado por aquelas memórias no momento da sua morte e, desse modo, poder transportá-las para o além como um martírio eterno. Temia que elas se apegassem a si como o “frame” duma imagem dum filme parado na eternidade.
Era algo em que ele -Luís Alberto- nunca tinha pensado: « (…) ser assaltado por aquelas memórias no momento da sua morte e, desse modo, poder transportá-las para o além como um martírio eterno.)» Tal ideia deixou-o apavorado. Ficou aterrorizado durante muitos dias e, na verdade, ainda não se viu completamente livre dela.
O Barreirinhas é um camarada nascido em Buarcos. Os seus pais não eram ricos, mas eram abastados. Tinham alguns bens. Tinham algo de seu. Viviam em Buarcos. O seu pai era proprietário duma pequena embarcação de pesca que conseguiu adquirir depois de ter sido durante muitos anos mestre dum arrastão.
- « Eles tinham o sonho que eu fosse estudar para poder ser “alguém”, como tantas vezes me diziam. Acabei, muito naturalmente, por ir parar à Escola Náutica, mais propriamente, ao curso de Engenharia de Máquinas Marítimas.»
Cedo arranjou amigos entre a malta do Instituto Superior Técnico lá nas “ Lisbias”. O Técnico de Lisboa era um estabelecimento de ensino com um dos principais, senão mesmo o principal, foco de oposição estudantil ao regime.
- « Fui referenciado nessa época. Já tinha uma consciência política suficientemente apurada para desertar, só para não ir parar a nenhuma das três frentes da guerra colonial.»
Dizia-se que sem a guerra, não teria havido a pesca do bacalhau. Os pescadores do bacalhau estavam sujeitos a condições de disciplina muito duras e muito semelhantes à disciplina militar
- « Ou desertava, ou baixava as calcinhas para o Tenreiro – o tal paizinho dos pobres- que era coordenador do Grémio do Bacalhau e que, ainda por cima, era amigo do meu pai. O tal que enviava a polícia DGS, antiga PIDE, para calar os pescadores».
- Não te rias pá!»
Foi graças a essa ”amizade” que conseguiu ir parar ao “Creoula”, o nosso último lugre bacalhoeiro – navio fantástico, o sonho da marinha a par com a “Sagres”. Também foi parar ao Gil Eanes o navio hospital da frota nacional de navios bacalhoeiros a pescarem nos bancos da Terra Nova. Tal favorecimento, não o dispensou da realização das 7 viagens para livrar à tropa, nem o livrou da prisão quando se insurgiu contra as condições de trabalho desumanas e tanto ou mais perigosas do que as da guerra.
Elas, as condições de vida nos bancos de pesca do bacalhau no Canadá, nada têm a ver com esse quadro romântico que o poeta António Nobre “pintou” no seu lindo poema :
“ A ladainha das lanchas”
« O meu país de Naus, de esquadras e de frotas, //
Oh… as lanchas dos poveiros//
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas//»
Nada disso! Elas nada tinham a ver com a dura realidade das condições de trabalho dos pescadores que largados nos seus “Dóris”, naquelas frágeis casquinhas de nozes passavam horas a fio sozinhos no meio do mar, entre forte ondulação, gelo, nevoeiro e frio insuportável, durante mais de 12 horas a pescarem bacalhau a bacalhau até encherem o barco.
Ferimentos, gripes, mãos gretadas, anzóis espetados, mãos cortadas pela linha de náilon, gretas de cieiro, gripes e pneumonias, pescadores caídos à água e desaparecidos eram acontecimentos frequentes.
Também os gritos lancinantes, e o choros das mulheres vestidas de negro com fiadas de criancinhas pela mão e de dezenas de familiares na despedida e na partida dos bacalhoeiros, partiam o coração de quem ia e de quem ficava sem a certeza de se tornarem a ver,
Poucos eram os dias que os barcos acostavam ao porto de “Saint Jones”, onde os pescadores sentiam, por poucas horas, os pés em terra firme e conviviam com os seus amigos locais. Estadias durante as quais, faziam as compras de pequenos mimos e lembranças e recebiam as cartas cheias de saudades e de boas e más notícias que são o sumo da vida.
- « Fui preso num desses protestos em que nós das máquinas e os pescadores reclamávamos a todo o comprimento, pelo cumprimento das promessas das condições de trabalho e pelo pagamento do salário que nos haviam sido prometidas antes da safra».
- Não te rias pá!»
Reivindicação nada comparada a uma outra que muitos anos antes se deu em terra Nessa, os pescadores juntaram-se para pedir melhores condições de trabalho e melhor remuneração e estavam sobre a mesa duas propostas para serem discutidas com um tal Alves, inspetor da PIDE que exigiu falar com três representantes dos jovens, daqueles jovens que ainda não tinham cumprido as 7 viagens e que por isso ainda estavam “presos à tropa”, ou seja, ainda estavam em condições de serem recambiados para a guerra ultramarina.
Compareceram dois mais velhos e um apenas um jovem. Compareceu o Tios Abraão do Cocas e o Zeca Varandas que os tinham grandes, e os tinham bem no sítio, apesar das ameaças e das pressões, depois de dez dias de ferozes conversações: conseguiram mais cinco coroas por cada quintal de bacalhau pescado; conseguiram que lhes fosse permitido passar a páscoa com a família. Uma miséria só para lavarem a cara.
- « Não havia poder negocial, havia medo e muita repressão.
- Eu fodi-me! Fui preso e vim recambiado para os calabouços da PIDE
- Não te rias pá!
- Juro-te!
- Juro-te pá!».
E lá continuou o Lúcio Barreirinhas -nome da clandestinidade- naquela tarde entre cigarradas e muita cerveja…
- « Juro-te pá! Juro-te que esta vida é rica, é riquíssima, nos desacertos da forma como que se acerta.»
Esta frase, aparentemente contraditória, não tem nada de contraditório, pelo contrário, a vida é exatamente assim. O Luís Alberto deliciou-se com esta imagem:
«Esta vida é rica, é riquíssima, nos desacertos da forma como que se acerta.»
- « Não te rias pá! Juro-te pá! Juro! Juro-te pá! Não te rias pá!» foi o tique, foi o ferrete visível e inultrapassável que lhe ficou da tortura. É talvez…, é quase com toda a certeza…, apenas aponta do iceberg!

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