Excerto do conto : Uma lua cheia na noite escura (2ª parte)

- « Fui, quase de certeza, o primeiro preso político a ser libertado na sequência da Revolução do 25 de Abril. Nesse dia, eram quase 10:00 da matina quando pisei a liberdade.
- Senti-me perdido!
- Não conseguia acreditar. Só queria afastar-me o mais possível daqueles muros.
- Caminhei desaustinadamente.
- Durante a luz desse dia caminhei pelas ruas, escondendo-me aqui e ali tal como se fugisse de alguém.»
- Não te rias pá!
Só à noite é que tomou o rumo da casa dos pais. Só à noite ousou entrar na estação e comprou um bilhete para viajar no comboio para a Figueira da Foz, mesmo assim, só trinta e seis horas depois de ter sido libertado é que bateu furtivamente à porta da casa e, depois escondeu-se para se certificar que eles estavam sozinhos e que não havia nas imediações nenhum PIDE de atalaia, emboscado para o prender novamente.
Os seus pais tinham recebido a notícia da sua libertação e correram para a prisão para o irem buscar. Desencontraram-se por pouco. Em vão o procuraram. Desistiram e vieram esperar por ele em casa. Fizeram o mais razoável. Temiam que ele pudesse, na sua loucura, ter ido fazer a tal espera a um PIDE para o matar, como tantas vezes lhes jurara que seria a primeira coisa que faria quando estivesse em liberdade!
- « Nessa noite ainda dormi umas horas em casa. Pedi--lhes dinheiro. Deram-me todo o dinheiro que tinham em casa. Às cinco da manhã fui para a estação e comprei um bilhete de comboio para Paris.»
Fez a viagem no sentido inverso dos seus camaradas. Eles voltavam para Portugal para festejar a revolução e para consolidar a liberdade alcançada e ele abandonava o seu país. Ele fugia dos seus fantasmas, sem imaginar, que os levava a todos consigo.
Paris era o destino imediato, depois se veria. Naquela altura ele ainda não acreditava no destino, até porque não lhe cabiam novas ideias no espaço onde acomodava Karl Marx, Engels e até o Mao amarelo, como lhe chamava com todo o carinho.
- « Nessa altura não acreditava no destino, mas que ele existe, lá isso existe, e que é endiabrado! Lá isso, é! Que ele prega connosco no chão e que nos espezinha a seu bel-prazer, lá isso espezinha, lá isso prega!
- Não te rias pá!
- Juro-te pá!
- Juro!
- Juro-te pá!
- Juro-te pá!, que esta vida é rica, é riquíssima, nos desacertos da forma como que se acerta.»
Calhou-lhe a carruagem número quatro e o lugar catorze junto à janela – só há dois anos atrás, quando leu o poema da Poetisa das Rosas - Maria Rita F. Soares, é que percebeu aquilo que lhe aconteceu, é que percebeu que lhe aconteceu como disse a poetisa naquele maravilhoso verso:
“Numa décima de segundo/
cruzei no teu o meu mundo/
e deixei os meus olhos falar/”.
Só então é que ele compreendeu verdadeiramente o que lhe acontece naquele dia. Só então é que percebeu a partida que o destino lhe acabara de pregar.
- « Não te rias pá! Juro-te pá! Juro! Juro –te pá! Juro-te pá! Ali, sentada à minha frente estava uma menina pequeno-burguesa da cabeça aos pés e que era a carinha mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida.
- Juro-te pá! Juro-te que me apaixonei por ela instantaneamente. Se mo tivessem dito alguma vez que é possível apaixonarmo-nos por alguém ao primeiro olhar, eu teria dito que era impossível! E…, mais ainda…., com o feitio que tenho, com os fígados na boca como tinha, era gajo…, tinha logo mandado esse alguém à merda…
- Juro-te pá!
- Juro-te que é verdade!
Apaixonou-me logo ali, naquele instante! Pela primeira vez na minha vida senti amor. Ainda não sabia o que isso é. Ainda não conhecia essa força.! Naquele instante senti pela primeira vez na minha vida o que era o amor. A partir daquele momento senti ódio, senti nojo de todos aqueles preconceitos esquerdistas que tantas vezes repetira sem pensar no real significado daquelas monstruosas palavras:
“Temos de comer as burguesas para nos vingarmos dos cabrões da direita”, e outras ainda piores que tantas vezes lancei da boca para fora sem pensar, bem como tantas outros preconceitos e palavras obscenas que eram fruto de ódios e frustrações sem sentido.
- Juro-te pá!
- Reneguei essa merda toda, reneguei a essas idiotices, reneguei esses preconceitos atávicos…, senti vergonha de mim. Nesse instante a minha mente ficou limpa, limpinha. Apossou-se de mim uma visão, apossou-se de mim um sonho muito pequeno-burguês».
- Não te rias pá!
- Juro-te pá!
- Juro!
- Juro–te pá!
- Não te rias pá!
- Juro-te pá!, via-me de mãos dadas com ela e com três criancinhas ao nosso lado a entrarmos para o jardim da nossa casa, uma pequena vivenda ensolarada e alegre. Era uma cena digna de uma fotografia desses calendários pequeno-burgueses de pendurar nas paredes das cozinhas..
- Juro-te pá!
- Nunca tinha tido um sonho bonito acordado. Nunca tinha tido um sonho pequeno-burguês, nunca tinha sonhado com uma merda dum carro, ou com uma merda dum fato, ou com um almoço num restaurante de luxo ou com férias num “resort”…, nada, nada…, nunca traíra a luta do proletariado, nem os seus sonhos revolucionários, via-me sempre vestido de fato-macaco e com um boné na cabeça, cinzento à cor do fato. Eu eram maoísta!!!!
- Juro-te porra!
- Acredita!
- Não te rias porra! É verdade!»
Não é nenhuma historieta cor-de-rosa. Não se riam porra! Aconteceu-lhe! Por amor, naquele instante, renegou tudo, tudo! Renegou anos de luta ! Renegou a coerência duma a vida inteira, porra!
- « Reneguei tudo, pá!»
Quando se apercebeu já estava a dizer-lhe o seu nome. Ainda estava de tal forma embrenhado na luta e na clandestinidade que se apresentou como Lúcio Barreirinhas. Só muito mais tarde é que desfez o equívoco. Foi uma bronca!
Ainda hoje, a Cândida Clara, a sua Cêcê, o trata por Lúcio.
Naquele dia disse-lhe que ia para Paris e que estava a fugir de Portugal.
Ela respondeu-lhe com simplicidade e sem artifícios. Disse-lhe que se chamava Cândida Clara, mas que as amigas chamavam-lhe Cêcê e que ia para Paris para casa duns familiares porque os seus pais estavam assustados com a revolução e estavam a vender tudo para depois fugirem de Portugal e irem ter com ela para passarem a viver definitivamente em França.
- « - Não te rias pá! Juro-te pá! Juro! Juro –te pá!
Depois começámos a conversar, enquanto o comboio indiferente, ia devorando a distância sempre nos limites do imposto pelos carris. Almocei e jantei daquilo que ela trouxe para comer.
Conversei, falei, conversei como nunca tinha conversado, falei como nunca tinha falado na minha vida! Nunca imaginei que se pudesse falar tanto sem nos repetirmos. Nunca imaginei que falar de nada fosse tudo e que, sobretudo, pudesse ser tão maravilhoso falar de quase nada, dizendo tanto!
- Não te rias pá!
- Juro-te pá!
- Juro! Juro-te pá!» - desta vez falava com tal convicção que puxou rudemente pelas mangas da camisa do Luís Alberto que desde o princípio da conversa não se parara de rir, para desespero do camarada Lúcio Barreirinhas.
Quando chegaram a Paris já eram definitivamente um do outro!.
Já sabiam que se queriam muito e para sempre.
- « - Quando chegámos a Paris, ela já sabia da minha “asinha esquerda” e eu já adorava aquele perfume que ela usava e que dizia que era um aroma com frescos “tons” florais e também sabia que a família dela pertencia a uma pequena burguesia comprometida com o regime e que era isso que os levava a abandonar Portugal, mas também já sabia que a amava e que nada, nada, mas mesmo nada, nos separaria.
- Não te rias pá!
A vida tem destas coisas! Não acreditas? Não acreditas?»
Combinaram encontrarem-se naquela gare dali a três dias, por volta das duas da tarde. No dia combinado, o Lúcio Barreirinhas chegou à gare por volta das 11 da manhã!

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