Excerto do conto : Uma lua cheia na noite escura (3ª parte)

– «- Não terias pá! Estava num grande sofrimento! Só pensava que ela não me apareceria. Que nunca mais a tornaria a ver. Tremia como varas verdes. Perdi as forças e sentei-me de frente para a entrada. Estava encostado a uma parede. Vi entrarem milhares de pessoas. Até para a cara das velhas olhava desesperado à procura dela.
- Estou a falar a sério, pá!
- Não te rias!
- Julgava que me ia dar um treco! Comecei a entrar em pânico. Sentia que podia morrer a qualquer momento.
– Juro-te pá! Não te rias!
- Tantas horas com os olhos fixos na puta da entrada da gare, nem me atrevi a ir mijar por causa do receio dela poder entrar quando eu estivesse a mijar e não me visse e se fosse embora.
- Era para aí 1 hora e 20 quando senti que alguém se sentou ao meu lado, mas eu estava tão fixado na porta que nem me dei ao cuidado de ver quem seria! Só quando a pessoa me tapou os olhos e a boca é que me ia borrando todo.
- Vieram–me à cabeça a imagens dos PIDES a quererem sufocar-me. Assaltaram-me todos os fantasmas do passado. Dei um grito que se ouviu em toda a gare. Gritei e gesticulei em pânico. Primeiro que me conseguisse acalmar foi o caraças!
- Não te rias, pá!
- Não te rias, pá!- dizia já enfurecido»
Ele teve um ataque de pânico que só lhe começou a passar quando ela lhe agarrou a cara com ambas as mãos e lhe gritou:
- « - Sou eu! Sou eu, a Cândida Clara.»
Ela ficou assustadíssima. Ela também entrou também em pânico, desatou a chorar e não havia maneira de conseguir parar. Para tentar acalmá-la teve de lhe contar tudo. Tudo. Tudinho: «.Que os gajos tinham dado cabo dele!; que o deixaram completamente marado da cabeça; lixaram-lhe os pirulitos!; cumpriram as ameaças!; esfrangalharam-lhe os nervos: passou a acordar a meio da noite aos berros, a gritar que o estavam a matar e às vezes até acordava completamente urinado.»
- « Andei nos hospitais de consulta em consulta a mudar de comprimidos e a mudar de médicos. Eram comprimidos atrás de comprimidos, tomava uns para conseguir dormir e tomava outros para conseguir acordar.
- Não te rias, pá!
- Tomei uns cabrões duns comprimidos que ainda estavam à experiência…, esses filhos da puta iam-me matando. Tenho a impressão que se tivesse tomado apenas mais um, hoje não te estarias a rir de mim, porque eu já tinha morrido. Quando os tomava via tudo, mas mesmo tudo, azul! Pessoas, cães, gatos, até os táxis eram azuis. Imaginas duas equipas a jogarem uma contra a outra e ambas equipadas de azul? Imaginas a confusão? Imaginas o árbitro também equipado de azul? Imaginas a confusão, imaginas uma noite tão azul quanto o dia? Eu ia pifando! Já não podia ver as pessoas a rirem-se com aquele sorriso azul, com os dentes e os lábios azuis, parecia que tinha caído um frasco de tinta azul sobre o mundo. Parecia que estava a viver dentro dum frasco de doce de mirtilhos.
– Não te rias pá!
- Ia ficando doido. Ao fim de três dias larguei-os!
- Garanto-te que se os gajos da PIDE tivessem daqueles comprimidos, nós ao fim duma semana cantávamos em azul. Piávamos tudo, tudo só para não vermos o maldito do azul.
- Juro-te pá! Acredita!»
Ela passou na gare bem à frente dos seus olhos e ele nem sequer a viu. Ela sentou-se ao seu lado e nada! Ele estava tão obcecado em vê-la que acabou por não a ver. Ela vinha acompanhada pelos primos. Estava muito feliz. Também ela tinha medo que ele nunca mais voltasse. Disse-lhe que foi um alívio vê-lo.
- « - Ela ouviu-me muito séria e até chegou a perguntar--me pelo nome dos inspectores. Quando lhe disse o nome do Carvalhal, ela rebentou num choro convulsivo e disse-me:
- « -Esse é o meu pai!»
- « - Depois é que foi o caraças!
- Ela começou a chorar e a dizer-me que tínhamos que acabar o namoro porque o Carvalhal era seu pai.
- Não te rias pá!
- Eu fugi de Portugal para França e logo durante a viagem fui apaixonar-me por uma pequeno-burguesa e ainda por cima, calhou-me a filha dum PIDE!
- É ou não é, o destino a cagar-nos na cara?
- Isto é possível, pá?! – perguntou-lhe como se ainda duvidasse.
- Dei saltos mortais à frente e atrás, fiz piruetas, guinchei como um macaco e “desapareci” a correr dali para fora como se fugisse da morte.
- Encharquei-me de comprimidos e devo ter passado para aí uns vinte ou mais dias desligado do mundo.
- É verdade pá!
- Não te rias!
- Não te rias pá!
- Não te rias pá!
- Não te rias pá!
- Sem saber, devo ter feito uma cura do sono.
- Sem saber!
- Quando voltei a mim, quando voltei novamente a ter consciência, ainda mal me segurava nas pernas arranquei como um louco para a gare à procura dela. Cheguei à estação sem forças, eram sete horas da manhã. Como não me aguentava em pé, caí e fiquei deitado no chão contra uma parede.
- Estava desamparado, cheio de fome, sem forças para me pôr de pé.
- Dei comigo a rezar.
- É verdade pá!
- Não te rias!
-Juro-te!
-Juro! Juro! Juro! – repetia aflito!
- Rezei a todos os santos que me lembrei. Rezei até ao Presidente Vajéri Giscard d`Estaing e mais uns quantos santos que inventei.
- Não te rias, porra!
- Já me estou a passar! - disse-lhe com um ar deveras zangado
- Rezei pois!
- As pessoas que passavam começaram a deixar moedas e até uma nota de vez em quando e eu tolinho, completamente tolinho, continuava a rezar. Quanto mais rezava, mais moedas elas deitavam. Enquanto as moedas iam caindo nas minhas mãos, ia rezando e abarbatando as moedas. Ia rezando e abarbatando, abarbatando e rezando. Se eu fosse um gajo materialista tinha visto naquela situação o furo da minha vida. Cheguei até a rezar ao “Bochechas”, mas quem fez o milagre foi o comboio das 14 horas, vindo não sei de onde.
- Esse santo sim!
- Esse santo é que ma trouxe!
- Fiquei a saber que ela, durante todos aqueles santos dias foi à gare das 14:00 às 16:00 horas à minha procura e soube que ela prometera a si mesma e à sua família que aquela seria a última vez que iria à gare à minha procura.
- Não te rias pá!
- Mas, agora não te rias mesmo, porque isto é muito sério!
- O pai dela enlouqueceu! Já há muito tempo que ele tinha pesadelos ainda piores do que os meus e vinha tendo comportamentos estranhos, até que baqueou completamente.
- Ele ficou com o entendimento duma criança de cinco anos.
- Nesse mesmo dia fui com ela a casa dela para conhecer a família e também conheci o pai dela. Quando me encontrei cara-a-cara com ele, ele não me reconheceu, mas simpatizou imediatamente comigo.
- Para mim foi um choque horrível ver um homem que me fez sofrer tanto e não ser capaz de me reconhecer.
- Não sei explicar, não sei o que me aconteceu, mas naquele momento perdoei-lhe, senti que aquele que ali estava à minha frente já não era, nem nunca mais seria o outro, aquele que tanto mal me fez. Esse desaparecera para sempre.
- A partir desse dia passei a levá-lo a passear, a apanhar sol no parque e levava-o agarrado à minha mão. Agarrava aquela mão que tanto mal me fizera, que tantas vezes me batera. Não havia ninguém em que ele confiasse tanto, quanto confiava em mim. Ele acabou por morrer num dos muitos ataques de pânico que teve.
- Morreu agarrado à minha mão em pânico!
– Levou consigo todos os pesadelos, levou-os para o além!
- Mas, não te rias pá!
- Queres saber, queres acreditar que desde lhe que perdoei, passaram-me os ataques de pânico, já não tomo nada!
- E já não tenho receio de transportar comigo os fantasmas para a eternidade!
- Juro-te pá!
- Não te rias pá!
- Juro-te que esta vida é rica, é riquíssima, nos desacertos da forma como que se acerta.
- Juro-te pá! Juro-te que o destino existe!
- Juro-te pá!
- Juro-te por Karl Marx! Juro-te por Engels! Juro-te até pelo meu Mao amarelo que o destino existe.
- Mais um a quem piraram a moleirinha, mais um que se passou dos carretos! Abanei a minha cabeça enquanto cheio de medo –de poder ser assaltado por aquelas memórias no momento da minha morte e, desse modo, poder transportá-las para o além como um martírio eterno- sentia uma tristeza profunda por mim e por todos os meus camaradas que passaram pelo mesmo que eu! (…)

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