Ler a chuva!

Hoje deliciei-me a ver a chuva a escrever gotas escorridas pelo papel de vidro abaixo. A letra dela foi variando de acordo com o estado de alma.
Ela apresentou-se tímida. No princípio escrevia ainda fina letra, lenta e insegura. A tinta era linda, límpida, transparente, ela era da cor da folha onde escrevia.
A transparência da folha permitia-me ver além do ler. Via telhados lotados de gaivotas com a tinta grossa a escorrer-lhes pelas costas. Esborratada a escrita, percebia nada além do tédio frio, penas cinzentas e bicos naifas agressivos e em ameaçadores tons esgrimidos.
- Se elas voavam? Não! Já disse que escorriam! Quem?! Ah!! as gaivotas, essas também não! Brigavam encharcadas de impaciência, mau feitio e rabugentas, mas era bela aquela coreografia de asas abertas, saltos agressivos, patas em riste ao peito apontadas, reviravoltas, recuos rápidos, gritos ensurdecedores e simulações abortadas de brigas mortais.
- Os gatos?!, escorriam pingados rente às paredes, fugidos da chuva que não sabiam ler. A tinta empapada, escorria neles, mole e escura suja, emaranhada naquelas bolas de pêlos desalentados. Miados tristes, baralhados, maldiziam a fome e a sede que sentiam sem perceberem. Fome e sede não chovem, sentem-se, ou seremos nós que não as sabemos ler? - diziam desconsolados!
Berra o vento, mia, grita, uiva fantasmas soltos na rua, bate as tampas das panelas e outros tantos horrores, fura através das frinchas, quer sair da chuva, quer entrar porque também não a sabe ler e nunca saberá - diz que é a sua má sina.
Queria muito saber ler a chuva, mas não sei, nunca saberei, encanta-me tentar soletrar as gotas letras, ora magras, ora gordas sem sentido outro para mim, senão o descendente.
Oh! encanta-me o seu cantar de água a cântaros e eu a olhar deliciado sem me molhar, separado dela pela folha papel de vidro transparente a escorrer a magia da escrita da chuva, só para quem a souber ler, porém, só ver, só ver, causa-me grande e maravilhoso encantamento.

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 8 de Fevereiro de 2024.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anterior ao actual (Des) Acordo Ortográfico.
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