O valor da vida e a tela de cinema

O valor de uma vida animal ou vegetal deveria ser um ponto consensual, mas nem sempre o é. O valor da vida humana acaba também ele por ser relativo, na prática, ainda que, como conceito, nunca o devesse ser. As emoções e os contextos alteram percepções e conceitos como o valor da vida, ainda que nunca tal devesse acontecer. Refletir sobre este ponto é trazer à razão, conceitos de base emocional.
Passaram duas semanas no momento em que escrevo este texto, 125 pessoas num estádio de futebol da indonésia, mais de 300 ficaram feridos, 32 eram crianças. Todas estas vítimas são diretas, não se contabilizarão as indiretas, as vidas que nunca mais serão reconstruídas ou recuperadas. Na mesma semana um homem matou pelo menos 35 pessoas numa creche da Tailândia, sendo 23 das vítimas crianças com idades compreendidas entre os dois e os três anos. Todos estes dados nos afetam com maior intensidade, quanto mais nos revemos em cada um dos contextos. Ou seja, é mais provável que uma mãe que também tem filhos em idade de creche, se sinta mais tocada por uma destas histórias. A proximidade à nossa realidade, entre outros factores, torna a notícia mais próxima, mais dura. Uma destas notícias pode até levar a que uma mãe impeça o seu filho de ir a um jogo de futebol num futuro próximo, mas não a impedirá durante muito tempo, a não ser que o seu filho seja parte dessa história trágica ou dessa memória real. 
A relativização da importância destes acontecimentos é também um mecanismo de sobrevivência, permite-nos seguir a vida como ela deve ser e fazermos coisas que são necessárias ou importantes, mesmo que sejam perigosas. Se não as conseguíssemos relativizar não conseguiríamos evoluir enquanto seres.
Uma das séries com mais sucesso da atualidade de uma plataforma de streaming é “Dahmer”, conta a história de um Serial Killer que fez coisas consideradas monstruosas. Outras histórias de vilões haviam sido retratadas no cinema ou em séries levando-nos a apreciar supostos monstros como se eles nunca o tivessem sido, levando-nos a encontrar alguma piada nos vilões como se eles merecessem tê-la. Lembro-me como exemplos de Al Capone, Pablo Escobar, Bonnie e Clyde. Estes últimos retratados como heróis muitas vezes, porque foi assim que a sociedade da altura os viu. Alguém escreveu um dia que “a morte de uma pessoa era sempre uma tragédia; a de milhões uma estatística”. Não é consensual quem a disse, quando disse e porque disse. Tem de ser consensual que num estádio, numa escola ou numa creche se celebre a vida e não se contabilizem os mortos. Este é o meu apelo para que cada vida conte, em todos os momentos da vida dos outros, em que poderíamos ser nós, independentemente do contexto.

(PAULO CUNHA - Psicólogo e Coordenador da Mental School)

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