Pede tanto a vida

Sou, o que viaja e regressa ao quente dos seus mais íntimos vasos, senectos e gravativos, tantos, escassos. Aqueles, que têm os seus próprios e autónomos eflúvios criativos, a chás maçãs importadas e pintadas de cor amarelada – amar ela -a cor da fome – e a canela cá de perto, roubada às chapadas de cada deserto, desenlaço-o e deixo-o e volto-o, e levo comigo todo o meu vento, o candeeiro mal aceso, passa um gato e tudo se resolve. E, a restos de pétalas de açúcar de cada frol, um dilúvio passa lá fora, na vida tudo passa e o que não passa, passa nós, dizemos nós, olhando para lá, para lá de nós afora, o que somos nós? O que fomos nós? E agora? E agora?
O candeeiro acendeu ainda mais forte e o gato dorme.
Sou, os meus antebraços que me cozem e se cruzam para se abraçarem em si, e, no fim, em entusiasmo e em terror se tentarem ser a bala e o canhão ou parte de uma praia em maré-flor e a sua pequena mão. Olha, amor, porquê tanta questão? Dá-me a tua mão. Não tenho mais nada, não posso, isso, não.
Sou, os passos que dou, voltem eles, não os meus passos, mas, os dois ou mais dois outros, os outros passos, para frente ou para trás, andem o que andarem, na terra dos meus vasos não dão dor, têm-me lá dentro nos terriços quem eu quero, para sempre há chuva e confettis e calor e música, fica-nos a escolha, a minha escolha não é assim, é tão minha, que é autóctone. É só sua.
Tocam a invenção inventada de quem diz ama e ama a sua invenção de amor.
Sou a primavera e uma outra estação, sem senha comprada, à espera da maldita cáfila, aquela que eu não acho, que nunca acho, aquele que o é, acho, acho isso de tanto o ter achado, que lá fora passa chuva e aqui já ela também o é.
Sou, a ponta da caneta que tem escrito nos tapumes da imprópria e própria terra, ou vivemos ou somos felizes, a escolha é nossa, a caneta é minha e, a vida da própria caneta eu gasto em esofágicas caligrafias, mesmo assim, devia usar mais a caneta, mas, se assim fosse, matava-a, nunca mais a via.
Sou o meu próprio desfiladeiro a escorrer pedreiras e fazer de dismetrias, ideias.
Sou a minha única escadaria que sobe, sobe até nunca mais a ver, eu deveria.
Sou, um talvez aí, talvez um dia, e a nada eu me dou, porque em cada instante, tanto nesse mesmo instante eu mais me queria, porque noutra ideia, há sempre outra caligrafia, estou aqui e estou ali. E, na verdade, fujo dos dois sítios, o que queremos e o que é, que noite de dilúvio, minha folha não se molhe, já bastam as palavras para lhe fazerem esta marca, ouço a música para deixar a mão em estado catatónico, dormente. E, um gato já mia.
Sou um sorriso, sorriso de mesa madrugadora, criado nas mantas e nas folhinhas, espalhadas por toda uma vida, a nada nem a ninguém totalmente me dou, nem José conseguiu mais com Maria, tivemos Jesus, como prova da existência ardida, a pura mortalidade – Depois, nasceu a fé, matando-se tu e toda a vida.
Pede tanto o amor.
Pede tanto a vida.

 

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