Quantos somos num só?

Assustado pergunto-me: - Quem é aquele que vejo(-me) no espelho?
- Como é que eu sou realmente?
Não me vejo como me vêem, hoje no espelho, os meus olhos. Como é que é possível não me ver como imagino que sou e, afinal, poder não ser exactamente como me imagino ser?
Também posso não ser como os outros mil olhos que me vêem de mil formas diferentes e que julgam que sou tal como me vêem.
Como é possível que eu me sinta diferente daquele que os meus olhos vêem e que também mil outros olhos diferentes me vejam de mil diferentes formas?
Afinal quem sou, ou como sou eu, se posso não ser como me imagino, nem ser como me vêem os meus olhos, nem tampouco ser das mil formas diferentes que me vêem mil diferentes olhos?
Como é que é possível poder não ser simplesmente como julgo ser, ou pelo menos não ser sequer como me vêem os meus olhos, nem talvez ser como me vêem esses outros tal mil olhos diferentes? "Redundo-me" nesta dúvida, nesta angústia permanente, nesta tangencial lucidez.
Serei afinal, simplesmente, todos esses em mim somente?
Ahhh!!! Como entendo o desassossego daquela Pessoa, daquele Fernando…que para dar voz às suas vozes, para dar voz aos muitos que em si próprio via e havia, libertou Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alexander Search, Jean Seul e tantos outros heterónimos…
Como é que ele geriu tantos mundos, tantas vidas, tantas sensibilidades reais dentro de si só e sozinho?…
José Saramago foi magistral quando “aflorou” este “assunto” no seu livro intitulado - « O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS.»- e, mesmo assim, só se atreveu a dar vida a um dos heterónimos de Fernando Pessoa…
Quantos dos que acabaram de me ler sentiram o meu grito mudo…este meu vazio repleto doutras tantas vidas dentro de mim…, dentro de cada um de nós?

Figueira da Foz, (Estacionamento do Recheio entre as 10:00 horas e as 11:30 horas) 29 de Setembro de 2020.
*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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