Sou um vagabundo mental

Sou um vagabundo mental -gosto-me assim- é por isso que, com muita frequência, agarro na caneta e desalvoro a caminhar com os pezinhos suaves das letras que vão deixando de mim um rasto azul marado e mareado. Então, caminho como um foragido de mim. Torno-me num caminhante sem destino, sem amarras e sem fronteiras. Levo na ideia a Aruanda, o Grande Coração, o Nosso Lar, a Victória Régis e tantos outros mistérios que tento descobrir. Dou por mim a caminhar sobre as letras para longe, para muito longe de mim, até me perder da minha vista. Dou por mim a caminhar às cegas. Caminhar, caminhar, caminhar apenas por caminhar. Caminhar assim, sem destino, num desnorte consolado até que a minha mão se canse de mim, ou sucumba, ou se acabe a tinta, ou se acabe a estrada de papel, ou que o meu pensamento sofrido se afogue neste indiferente mar pautado e estendido e sem ondas nem marés, mas cheio de incertezas. Nessas alturas não quero olhar para trás, para não ver o lamaçal de inutilidades que me perseguem: os relógios inquisidores a transbordarem de ninharias apressadas; as páginas das agendas afogadas nos compromissos que depressa perdem o sentido; os desassossegos causados por desvalores repletos de nadas asfixiantes. Então, apenas fujo montado nas letras sem caminho, nem pontos cardeais, nem qualquer luminar que as guie. Enlouqueço as bússolas e causo-lhes enjoos estonteantes. Depois..., já muito longe de mim e esgotado, começa a dominar-me um pequeno alívio, uma pequena moinha sonolenta e lenta, muito lenta, que me entropece até me adormecer. Quando acordo deparo comigo deitado no sofá donde nunca saí. Afinal continuo aqui preso em mim com a caneta na mão. Consulto novamente o relógio obsessor que me marca mais duas horas perdidas avançadas na minha existência. Volto desconsolado à página da agenda cheia de letras mortas de boas intenções. Reitero a pergunta repetida tantas vezes: - Qual é o fim, qual é o sentido de tudo isto? Ressoam fundo as respostas óbvias: - Não é certamente a aquisição de mais um automóvel novo que se desvaloriza a cada dia que passa, nem é o apartamento que se torna cada vez maior e mais vazio de mim e de vida, apesar de estar a abarrotar de memórias vazias e de duvidoso préstimo, portanto, apenas me resta continuar a aventurar-me nesta errância de letras, nas quais sonho a ilusão de também fazer outros sonharem.

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 06 de Agosto de 2022.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

 

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