Talvez sirva a alguém

Não sabia dizer porquê -infelizmente hoje sei- mas perfizeram nesse dia, ou uma semana atrás, ou perfariam uma semana mais à frente, dois meses sem nos encontrarmos. Até parecia que me fugias.
Eu era, dos teus amigos, o mais habitual à tua mesa. Não era necessário nenhum pretexto para almoçar, petiscar, ou jantar contigo.
Naquele dia viste o meu carro na Rua da República, paraste o teu em dupla fila ao lado do meu e marcaste uma hora.
- Às 18 horas em minha casa?!
- Ok! - anuí.
Já me encontrava a caminho quando o meu telemóvel tocou, eras tu. Garanti-te que ia a caminho. Cheguei uns minutos depois da hora marcada, se mais..., pouco mais de dez minutos teriam passado das 18 horas.
Já a mesa estava composta com as entradas: presunto fatiado e também a pá, para dela continuarmos a fatiar, se a preferência nele, ganhasse aos três tipos diferentes de queijo, às ovas cozidas e sempre bem temperadas, aos percebes e aos camarões cozidos, e..., e..., e era sempre muito farta a tua mesa!
- Ena! O que é que comemoras? Só falta o leitão!!!
- Também há, aliás, é o nosso jantar!
Só nessa altura vi que já estava na mesa, à frente do lugar que habitualmente me era reservado, a minha bebida preferida para acompanhar o leitão assado à moda da Bairrada. Lá estava convidativa, marota, fresquinha, parecia estar a rir-se para mim, a indefectível garrafa bojuda, dum espumante reserva, bruto, tinto das Caves da Adega Cooperativa de Cantanhede.
Entretanto, a conversa escorria macia, acompanhada do pica aqui e pica ali nas entradas, destemperadas a gosto pelos taninos acres das bebidas.
A conta gotas, foram chegando os restantes convivas. Os contados disseram presente a cem por cento, só então avançámos para o jantar e depois de muitos papapa...papapa...papapa...de todos os tamanhos, cores, feitios e agrados, cruzados em todos os sentidos da mesa e, papapa, papapa, papapa, até que todos já saciados e, muito bem - digo-o em abono da verdade - todos também bastante animados, passámos às sobremesas, eu saltei-as e passei ao meu preferido Logan, outros passaram ao licor Beirão, e depois quase todos ao café.
Foi nesse momento que tu puxaste de um pequeno maço de cigarrilhas pequenas e escuras, acendeste uma, e começaste a "baforar" repetidas fumaças dela.
Naquele momento, constactei que tinhas perdido a guerra contra o vício do tabaco. Fiquei triste, pois, já não fumavas há mais de dois anos.
Ainda esboçaste uma justificação, estavas engordar demasiado, já sentias dificuldade a caminhar, papapa, papapa, papapa.., respondi-te? Nada! Somente o meu silêncio te transmitiu a minha dor. Também me senti derrotado, mas...quem era eu para te criticar, para te julgar, pese embora, soubesse do perigo que corrias.
Diferente teria sido, se eu estivesse presente no momento em que te derrotaste, ao acender o primeiro cigarro desta última leva.
Muitas vezes te tinha dito que a luta contra esse vício, ou seja, a luta para parar de fumar, é uma luta diária que se contabiliza da seguinte forma: desde a data tal ... , até ontem, não fumei, e hoje, até agora, também não. Esta é a única garantia que os ex-fumadores têm, porque esta luta é diária e ela nunca está ganha.
O meu pai era um fumador inveterado, fumava compulsivamente, na maioria das vezes acendia o cigarro seguinte com o cigarro que estava a acabar, até que um dia, por uma questão no trabalho com um superior hierárquico, tirou o cigarro da boca, atirou-o para o chão, esmagou-o com o pé, e prometeu a si próprio, que nunca mais alguém tornaria a chamá-lo à atenção por estar a fumar. Prometeu e cumpriu!
Quarenta anos depois de ter deixado de fumar, confessou-me que um dos seus maiores pesadelos era sonhar que tinha voltado a fumar - acordava invariavelmente apavorado.
Confessou-me também que, apesar de já não fumar há cerca de quarenta anos, ainda sentia o desejo de fumar, sentia até mais do que o desejo, sentia ânsias de fumar!
Contei-te, amigo, esta história de vida, um pouco mais completa, disse-te que ele depois de ter deixado de fumar, foi parar várias vezes ao hospital com sérias dificuldades respiratórias, parecia que ia morrer dum momento para o outro, era pavoroso! Numa dessas vezes, convenci- -me que não o tornaria a ver vivo - passei a odiar o tabaco.
Na sequência desse episódio, um médico disse-lhe:
- O senhor tem de parar de fumar imediatamente!
- Senhor doutor, já deixei de fumar há quatro anos.
- Então, o tempo dirá se parou a tempo!
Foi, ou talvez não tenha sido, nunca saberei se o AVC que o fulminou, teve ou não, como causa remota o abuso de tabaco, não sou o melhor julgador porque, desde então, diabolizo o tabaco.
Sobre dois factos falo com quase certeza: o primeiro, é que ninguém consegue deixar de fumar enquanto não o desejar, com verdade, quase diria, enquanto não começar, crescentemente, a odiar o tabaco; o outro é que num qualquer dia, o organismo dará o aviso do agora ou nunca. Alguns -todavia poucos- dão-lhe ouvidos e tornam aquele agora, num permanente nunca mais. Porém, outros, muitos mais que aqueles alguns que acabei de referir, já conformados com a sua pena, deixam-se morrer como a galinha com a sua peninha.
Amigo, como te dizia, hoje sei porque é que andavas fugido de mim havia dois meses, mais semana ou menos semana.
Tal como no caso do meu falecido pai, nunca saberei se o AVC que te vitimou, teve ou não, como causa remota, o abuso de tabaco. Não sou o melhor julgador porque diabolizo cada vez mais, e mais, e mais o tabaco.
Tais cautelas já não te servem de nada, mas ainda assim, persisto em divulgá-las na esperança que sirvam a alguém.

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 15 de Janeiro de 2024.
Este texto foi escrito segundo a ortografia anterior ao actual (Des) Acordo Ortográfico.
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