…tenho ainda e também qualquer das idades que me trouxeram até aqui…

Dentro do meu corpo dobrado e entorpecido ainda caminha ágil um menino. Ele saltita livre no meu imaginário solto. Ele joga dentro de mim e comigo amigo todos os jogos da nossa colorida infância: juntos saltamos à macaca; jogamos ao lencinho e à cabra-cega; escondemo-nos, à vez alternada, um do outro no jogo das escondidas; cansamo-nos à apanhada e com o toca e foge; fazemos correr o arco e cansamos o triciclo e a bicicleta; surripiamo-nos os nossos berlindes e brincamos tantas e tantas mil outras brincadeiras e traquinices..., quando nos cansamos, sentamo- -nos e conversamos em silêncio as tantas, tantas, tantas memórias da nossa vida…
Só alguns nos vêem, porque os muitos outros desviam dos meus os olhos seus. Esses não conseguem ver, dentro do meu corpo dobrado e entorpecido, aquele menino ágil que dentro de mim e comigo ainda caminha.
Outros, porque sufocam o menino que também existe dentro deles, sentem pena, medo, ou pavor, por verem em mim somente o meu corpo dobrado e entorpecido, por verem em mim aquele espelho que tanto os aterroriza, por verem no meu corpo o espelho do seu possível futuro também assim. Evitarem olhar-me não é, senão um pontapé preto num gato inocente e imáculo de tal culpa. É-lhes andrajoso ao olhar o arrastar da velhice, porque não imaginam nem conseguem ver a alegria da criança feliz que sou ainda em mim e que aqui comigo permanece e permanecerá até ao meu fim.
Aquela criança, aquela também eu ainda dentro de mim, saltita, rodopia, corre, chapinha nas pocinhas, baila fantasias debaixo da chuva que não molha e também debaixo daquela chuva que muito molha, canta, delira no meio dos sonhos e das gratas e doces recordações da vida que nunca se apaga dentro deste corpo cansado e quase, quase, quase parado, mas muito leve, muito leve no sempre doce sonhar…, mas…, os olhos das verdadeiras criancinhas vêem tudo, e, é por isso que elas se apegam tanto aos velhinhos e adoram incluí-los nas sua brincadeiras...
Olha para mim, -não desvies o teu olhar,- procura descobrir a vida e toda a beleza que ainda há em mim, em ti e em todos nós. Não me magoes, nem te magoes, com esse olhar distante, desviado, fugido e perdido no vazio longe de mim e também de ti. Encontra-te contigo, não me fujas e também não fujas de ti, encara-te nos meus olhos…, tem dó de ti!
NB: Pela minha certidão de nascimento tenho quase 62 anos, mas…, de resto…, consoante o momento…, tenho ainda e também qualquer das idades que me trouxeram até aqui…

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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