Um barco a deriva

Chamei varias vezes por ti porque necessitava que me trouxesses a caixinha com os sinais de pontuacao e da acentuacao Era urgente mas nao me respondeste Era urgente porque trovoavam ideias no meu cerebro faiscava me uma tempestade tremenda não podia perder aquela subita inspiracao E mesmo assim ela surge repentinamente nao e antecedida dum sol radioso ou de nuvens escuras nem duma cinza nevoenta que me avisem Sem poder prever assolam me palavras frases inteiras ideias novas ou velhas imagens torcidas retorcidas distorcidas e outras escorreitas limpidas ou negras algumas cheias de cores ou de tons esbatidos ou fortes como os sons vomitados na furia grossa dos trombones corpulentos com curvas harmoniosas e com a larga boca aberta donde brotam melodiosos acordes capazes de abafar a algazarra dum bando de gaivotas a lutar pelos alimentos escassos Se nao agarrar esse momento de desassombrada inspiracao elas as ideias serão desperdicadas numa enxurrada da qual apenas consigo capturar umas quantas mas a maioria escorrem me das maos em concha e formam aos meus pes uma poça de preciosidades reluzentes que se esvaem como a agua da chuva que desaparece dentro da terra não sei para onde apenas sei que perco as irremediavelmente Desta vez zurziram me numa enxurrada bruta os versos soltos dum poema misturados e sem sequencia não contando com os que entretanto se perderam restando me uns quantos desalinhados entre as rimas perdidas no meio de frases soltas e sem aparente nexo desfiadas a eito que jeito me dariam os travessoes agora que falta me faz aquela caixinha porque remexeria o seu conteudo a procura dos dois pontos e a seguir escreveria
sou como um barco a deriva
molhado pelas lagrimas das despedidas
vejo gaivotas aos pares desencontrados
das sete manhas perdidas no cinzento
dos amores crus e desmoronados
a procura do norte vivo sem norte
crianca sofrida no escuro
desmandado pela bussola louca
pares perfeitos de cimento
bandos aflitos na pouca sorte
e atormentado por uma sirene rouca
alimentada com pao duro
e mais alguns outros versos que com a delicadeza dum experimentado ourives burilarei com minucia durante horas perdidas num encantamento esquecido de mim. Incrustarei esmeraldas de sonhos cores rimas primas pontos com e sem exclamacoes reticencias varias que distorcerao o sentido das palavras presas no mar liberto da criacao onde no sentido consentido verdadeiro se encontram Chamei varias vezes por ti porque necessitava que me trouxesses a caixinha com os sinais de pontuacao e da acentuacao Era urgente mas nao me respondeste Esta e a magia criativa da confusao da arte escrita ou de qualquer outra arte que quebra as regras os formalismos e embeleza e da sentido a vida por favor traz me a caixinha pois fervilham me as ideias escorro poemas…escorro sonhos audaciosos…escorro vida vida…vida sinto-me feliz Sou feliz Sou feliz envolto numa tempestade de letras mesmo que desfalcado daquela caixinha tao preciosa E assim simples e ao mesmo tempo complexo o meu devaneio o meu estar sem estar estando somente comigo sozinho
- Oh! Obrigado! Que maravilha, teres-me trazido a caixinha que tantas vezes te pedi. Fervilham-me tantas ideias. Tantas, tantas que até parecem ervilhas, tantas, tantas que até “ervilham” os campos; “azulejam” o mar de mil azuis; “amarelejam” o sol a pino e “avermelhejam-no” ao deitar-se. Agora sim, agora posso resvalar para o meu mundo secreto e ”brincar” com o “feitiço” das palavras e “poemar”, “poemar”, “poemar”:
Sinto-me como um barco à deriva //
desgovernado pela bussola louca //
ensopado nas lágrimas da despedida//
e atormentado por uma sirene rouca.//
Voam gaivotas aos pares desencontrados,//
nas sete manhãs perdidas num cinzento.//
Presas nos amores crus e desmoronados,//
nos pares imperfeitos de aço e cimento.//
A minha criança sofrida no frio escuro,//
procura à sorte, o vivo norte, num desnorte.//
Rilho uma fome enganada com pão duro,//
enquanto o barco adulto maldiz tal sorte.//

Figueira da Foz, 12 de Outubro de 2021.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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