Viagens e fantasias!

No ano passado (2021) pouco viajei, aliás, também quase não saí de mim e, raramente abri as janelas da fantasia, em suma, pouco me arejei, - entenda-se por viajar, ler, e por abrir as janelas da fantasia, escrever-, mas este ano (2022) sinto-me revigorado e, por acaso, ou por ironia, ou por qualquer misteriosa e inexplicável sincronia, a primeira viagem que iniciei tem precisamente por título a palavra viagens. “Viagens” é um livro da escritora Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura,
Eu, antes de começar a ler um livro, antes de começar a viajar, tenho por hábito, tentar decifrar o significado da sua capa. Analiso as cores e as imagens utilizadas e, analiso tudo o que puder revelar-se interessante, analiso até a textura do papel, são tudo pormenores, informações importantes. Confesso que ainda não consegui decifrar o significado daquela árvore com a copa voltada para baixo e com as raízes voltadas para cima, contudo, acompanhar Olga Tokarczuk está a revelar-se uma viagem interessante e cheia de fantasia. Apesar de não ter uma história condutora, ela faz-se através de textos que refletem pensamentos, que descrevem situações, ambientes, encontros e desencontros, conversas, aromas, paladares, quartos de hotel, museus e paisagens que nos fazem pensar e até a sonhar. Isto é viajar.
Foi com surpresa que na página 23, durante uma visita da narradora a um Museu de Anatomia Humana em Viena, deparei-me com a descrição do ferimento duma caveira, ferimento que ela descreve como “um buraco na fronte” e que é semelhante ao do Engº Phineas Gage, cujo study case foi objecto do livro de António Damásio intitulado: “O Erro de Decartes”. São estas associações, ou intersecções, ou cruzamentos que nos enriquecem e que nos induzem a novas viagens, é este o encanto da cultura e da sua imparável dinâmica, porque os sonhos puxam sonhos. Sei pela viagem de Damásio que Phineas Gage não morreu em consequência do tal ferimento que lhe danificou profundamente o lóbulo frontal, cuja função e importância, até então, a ciência conhecia mal. Como consequência daquele acidente, a personalidade de Phineas Gage transformou-se completamente, não morreu o corpo, mas morreu “alguém”, ou “algum” dentro de si e, “aflorou” um “outro” completamente diferente. Perdeu-se o rigoroso engenheiro e surgiu um homem afável, mas descomprometido com a anterior realidade e incapaz de tomar decisões e de conduzir a sua nova vida. O cérebro e o seu funcionamento continuam a ser um mistério: - Porque é que grandes traumas físicos e, ou, psicológicos, podem ter como consequência sérios transtornos da personalidade? Estou a lembrar-me das descargas eléctricas de grande voltagem; dos traumas de guerra; da assistência de acidentes; da perda violenta, ou não, de entes queridos; das consequências das depressões profundas, ou, até, do célebre “Estalo de Vieira”. Enfim! Conhecer a fragilidade humana é assustador.
Mais adiante, na página 158 deparei-me com o seguinte título: “ UM QUARTO DE HORA MUITO LONGO” cujo texto se resume às duas seguintes frases: “Dentro dum avião entre as 8h45 e as 9h00. Para mim, durou uma hora ou mais.” Interrompi a viagem e fiquei a pensar nas muitas situações que dentro de um avião - ou fora dele - possam fazer 15 minutos durar uma hora ou mais. Não sei que portas, que “fantasias”, que sonhos”, que “viagens” estas frases carregadas de mistérios me acabaram de abrir…,
mas…,
confesso que continuo a preferir viajar na língua portuguesa, porque na tradução dum livro perde-se muito da sua essência, da subtiliza, da riqueza cultural que até pode ser explicada, mas que é intraduzível. Imagine-se traduzir para japonês, ou para sueco a seguinte passagem da maravilhosa viagem: A QUEDA DUM ANJO” do nosso querido cicerone Camilo Castelo Branco que transcrevo do Capítulo I, intitulado:“ O HERÓI DO CONTO”. “Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, no termo de Miranda.
Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda.” Portanto, questiono-me com tristeza e muita frustração: - Quanto se perde na tradução de Hamlet, da Eneida e, e, e… Paulina Chiziane, escritora moçambicana, Prémio Camões 2021, viaja em português, língua que domina e em que se expressa correntemente como sua primeira língua oficial. Ela confessa que encontra “impossibilidades” no uso do português para contar as histórias existentes nas línguas locais moçambicanas, porque, no seu muito acertado dizer, existem alguns aspectos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Ela diz que: “- Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do sul) quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é a propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção e as coisas não chegam a ser como realmente deviam ser.”
Posto isto. Rei morto, rei posto. Já viajo a meio da Exortação aos Crocodilos, de António Lobo Antunes e já regresso ao passado, em bom português com “ A QUEDA DUM ANJO de Camilo Castelo Branco.
- “Bora” lá, viajar? Basta fazer pequenos percursos diários de 30 páginas (15 folhas apenas; cinco durante a manhã; cinco à tarde e cinco à noite) que multiplicadas por 365 dias, dão 10.950 páginas por ano, que a dividir por uma média de 340 páginas por livro, dá 32 livros por ano, ou seja, sem grande esforço, perfazem no mínimo duas ou três viagens por mês.
- “Bora” viajar?

Figueira da Foz, 14 de Janeiro de2022.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.
“Copyright 2016 Walter Ramalhete. Todos os direitos reservados.”

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