Amanhãããã!!!!

Amanhããã!!! está quase a chegar. Amanhããã!!! poderá ser num qualquer instante quando eu menos esperar. Amanhããã!!! poderá ser ainda hoje. Esse amanhããã!!! não é um tempo, será já uma outra dimensão sem tempo, sem as barreiras do ontem, do hoje e do amanhã que até agora me aprisionam.
Então, nesse depois, na minha primeira madrugada livre nessa dimensão, sentar-me-ei no cimo do Morro Lubiri - que sempre me fascinou - e afastarei as nuvens com as mãos para tornar a assistir ao romper do sol na Angola amada que me viu nascer.
Não estarei sozinho, comigo estará a minha criança interior que por lá deixei abandonada há mais de cinquenta anos. Connosco estarão também todos os cães companheiros da minha vida. Um bom dia, com a alegria que eles transbordam, a todos nos desejaremos antes do sol chegar.
Sei que os meus olhos chorarão, mas não me importarei que assim me vejam, não me importará que saibam que chorei, conquanto não saibam porquê. Descarregarei de mim o peso sobre-humano da saudade que carreguei durante mais de cinquenta anos - a saudade é um fardo muito pesado.
Um após outro, chamarei os meus cães pelos respectivos nomes, desde a Lulu que cuidou de mim quando eu era bebé, até à Bianca a última a cuidar de mim quando eu já era muito consciente. Abraçarei todos, um após outro e secaremos a dor da saudade tendo o sol por testemunha. É por isso que quero chegar de madrugada, sem me importar que me vejam chorar, conquanto não saibam porquê. Que Fernando Pessoa me perdoe, mas para mim, SENTIR não É ESTAR DISTRAÍDO.
Aqueles cães foram meus mestres dentro desta nave espacial chamada Gaia durante esta viagem ou durante esta vadiagem que ainda não consegui entender... Sem os animais, sem esses companheiros de viagem a vida teria sido aterrorizante. No seu silêncio ajudaram-me a aceitar que há um sentido e um propósito maior para a nossa vinda cá à terra. Estou-lhes profunda e eternamente grato.
Já com o sol a espraiar-se nas nossas costas e com as nuvens ainda a banharem os nossos corpos, nelas lavarei as minhas mãos para "opipar-me" - cá está a minha mão marota a trocar as voltas às regras gramaticais: ela gosta de substantivar adjectivos, ocultar os sujeitos, evidenciar os nomes impróprios, obnubilar os próprios, adjectivar substantivos, conjugar substantivos e adjectivos como se verbos fossem (tal como fez ao desprevenido adjectivo opíparo), desnortear directa ou indirectamente os complementos, baralhar as palavras, deixá-las tontinhas com as voltas e reviravoltas que lhes dá, criar-lhes erros certos com os desacertos de mão, sacudir para o lado como migalhas as palavras desordenadas nas frases muito bem encarreiradas, dar uso a palavras inconsentidas, plenas de sentido mesmo que usadas num sentido proibido, irritar as palavras até amuarem, mas sempre com muito respeito pela arte da escrita bem escrita, fazer com ela o que fiz com a vida, fazer da desgraça graça reverenciando sempe, sempre, esta graça que me foi dada - dizia que, com as mãos já lavadas na água das nuvens, começarei a opipar-me desregradamente com loengos, maboques, fruta sape-sape (anonas), goiabas, mangas, abacaxi e, por fim, sobre folhas de bananeira, comerei com as mãos a tuqueia e molharei no seu molho bolinhas de funge acompanhadas com gindungo à dentada, tudo regado com quissângua de milho bebida directamente da cabaça e depois..., depois chuparei os dedos porque as nuvens fugiram do sol que se tornou abasador.
Amanhããã!!!, já do outro lado do véu, onde o tempo não marca nem conta, onde também não há longe nem distância..., muitos familiares e amigos me receberão e quando lá para as bandas do Huambo ouvir o rufar dos batuques, irei juntar-me à festa da minha gente naquele velório - lá é assim, é cultural, é ancestral, lá não há carpideiras porque tem-se a morte por libertação, por regresso, por viagem, por continuação duma caminhada maior, a verdadeira - juntar-me-ei a eles e entre danças libertadoras, conversas e lembranças contadas da vida ida, gargalhadas, abraços, beijos, lágrimas felizes em festa verdadeira, eu e a minha criança interior: Zak, zak, zak, beberemos quissângua até cairmos. Zak, zak, zak, beberemos quissângua até cairmos e, quando ouvirmos em Benguela um agulheiro anunciar repetidamente: Partidaaa!!!, partidaaa!!!, partidaaa!!! enquanto caminha longo do Comboio Mala para entregar a guia de marcha ao maquinista que segura a máquina já a resfolgar pelas ventas baforadas de vapor e com três avisos tronitroantes começa a meter a meter movimento na composição, dando início a uma viagem de mais de dois dias durante a qual cinco máquinas se revesarão a cantar a Kurikutela, kurikutela, kurikutela, enquanto rasgam as maravilhosas paisagens de Angola até à fronteira com o Congo.
Entretanto, eu e a minha criança interior também embarcados nele, começamos a viagem do nosso reencontro, do paziguamento daquela saudade, do alívio daquele peso sobre - humano que só a grande viagem resolve.
Kurikutela!!! Kurikutela!!! Kurikutela!!!
P′a ti mamã que farias ou fazes ..., neste dia de tamanhas saudades, 93 aninhos. "Miles, miles, miles" beijinhos e abracinhos.
NB. Para melhor entender este texto oiçamos do Duo Ouro Negro as canções Amanhã e Kurikutela.

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 7 de Outubro de 2026.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anteriores ao actual (Des) Acordo ortográfico. Reservados todos os direitos de autor.

 

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