Ontem, num intervalo do bulício de cinco dias de casa cheia, o Louis e eu escapámo-nos para um passeio pela floresta. Havia algumas nuvens, mas o sol ainda brilhava e a temperatura convidava a caminhar.
A primeira parte do percurso esteve longe de ser propriamente um "passeio no parque", graças às obras da nova estrada que agora nos passa à porta. O acesso ao campo do outro lado — anteriormente feito num pulinho — obriga-nos hoje a atravessar a antiga estrada, com o alcatrão já esburacado, mas ainda à espera da prometida camada de terra, a contornar um dique cuja utilidade continua a escapar-nos e, finalmente, a utilizar um túnel construído essencialmente para permitir a passagem dos animais selvagens entre os dois lados da floresta.
(Ah! Julgam que as obras que complicam a vida dos moradores são exclusividade portuguesa? Enganam-se...)
Entretanto começou a cair uma morrinha leve, quase tímida. Nada de preocupante. O sol continuava a espreitar por entre as nuvens e seguimos caminho, saltando ramos caídos, pedras cobertas de musgo e as covas de lama deixadas pelos javalis. Pouco depois, a chuva desistiu.
Na floresta, os pequenos abetos-de-Douglas (Pseudotsuga menziesii) e os lariços-europeus (Larix decidua), plantados na Primavera passada — todos da mesma origem, tratados com igual cuidado e seguindo exactamente a mesma técnica — apresentam hoje alturas completamente diferentes. Tal como as pessoas, também as árvores parecem escolher o seu próprio ritmo de crescimento.

A vegetação cresce exuberante, obrigando-nos a constantes fintas e ziguezagues, mas o perfume da terra húmida e a pureza do ar compensam largamente o esforço. As amoras ainda estão verdes... ou melhor, avermelhadas, mas as framboesas selvagens já abundam. São minúsculas, delicadas e extraordinariamente doces. Como não levei nenhum recipiente, não tive outro remédio senão ir saboreando uma a uma, com a calma e o método que tão agradável tarefa exige.
Foi então que a morrinha regressou, agora um pouco mais decidida. Acelerámos o passo e procurámos o caminho mais seguro para casa. Mas, em poucos minutos, a chuva ganhou coragem, o vento levantou-se sem aviso e vimos ali perto uma enorme faia que nos pareceu um excelente abrigo.
Pareceu.
Porque o vento resolveu divertir-se à nossa custa, mudando constantemente de direcção e obrigando-nos a dar voltas e mais voltas em redor da árvore, numa autêntica dança de roda, ora para um lado, ora para o outro, sempre à procura de um abrigo que nunca chegava.
O resultado foi previsível: apanhámos uma valente molha.
Chegámos a casa completamente encharcados, mas felizes. E, acima de tudo, profundamente gratos pela bênção de ainda podermos viver pequenas aventuras como esta. Afinal, nem todos os dias um casal que soma 162 anos de idade regressa de um passeio pela floresta a rir como duas crianças.
Há dias em que a felicidade não passa de um trilho na floresta, meia dúzia de framboesas selvagens e uma boa história para contar ao regressar a casa.
Alice Mano-Carbonnier
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