Saudade não é tristeza.
É um sentimento agridoce que nos devolve memórias de pessoas, lugares e momentos que recusamos deixar apagar. É nostalgia sem mágoa, lembrança sem amargura, recordação sem o peso da melancolia. E, no fundo, é uma coisa boa. Porque só sentimos saudades daquilo que verdadeiramente amámos.
Eu tenho saudades da minha terra.
Da minha casa. Da minha gente noutros tempos.
Tenho saudades das marés altas, das ondas a bater nas canhoeiras.

Saudades da infância.
Do prazer simples de ir à escola.
Das viagens no Farreca.
Das brincadeiras na rua.
De rebolar nos chorões até à areia.
Dos saltos acrobáticos do topo das bateiras.
De nadar até à “medrôa”.
De esperar que as ondas baixassem para “dobrar” as canhoeiras.
Dos bois do Delgadinho a puxarem os botes para terra.
Tenho saudades da porta da rua sempre aberta.
Da mercearia da Menina Helena, logo ali ao virar da esquina.
Da loja da Prima Jarra, onde escolhíamos os tecidos para os vestidos de festa.
Do cheiro a café com canela que vinha da cozinha quando regressava da escola.
Do chinelo voador quando fazíamos disparates.
Saudades do teatro e das festas nos Caras Direitas.
Dos concursos de twist.
Dos bailes na garagem do Vasquito.
Dos Verões na fazenda da avó Rosa, onde o tanque da rega era uma piscina de luxo e a fruta apanhada das árvores tinha um sabor que ainda hoje me fica na boca.
Saudades das fogueiras de São João em cada esquina.
Das “fatias de parede”, nome delicadamente inventado pela minha mãe porque “parida” era palavra proibida diante das crianças.
Dos fogareiros na rua a assar sardinhas.
Do cheiro a frango ao domingo nas ruas estreitas que nos levavam até à igreja.
E tenho saudades dessa liberdade estranha e contraditória: a que nós, crianças e adolescentes, vivíamos sem medo, apesar das amarras de um país onde ela, afinal, não existia verdadeiramente.
Saudades.
Simplesmente saudades.
Alice Mano-Carbonnier
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