Equinócio da Primavera - O Equilíbrio para o Recomeço

O equinócio da Primavera é, antes de mais, um facto astronómico de precisão bela e fundamental para a vida: o momento em que o Sol cruza, na sua viagem aparente, o equador celeste e distribui a luz de forma igual pelos dois hemisférios. Este equilíbrio entre o dia e a noite não é apenas uma curiosidade do calendário, mas a manifestação do ritmo sussurrado no universo. Tudo o que observamos tende a obedecer a este fluxo e influxo, a uma sucessão de marés que impede a estagnação da realidade.

No plano simbólico, este fenómeno representa o triunfo da luz sobre a sombra - e foi, e é cultuado de diversas formas por ainda mais diversas tradições. É uma forma de ressurreição visível na natureza: a luz do sol mais duradoura e quente, o regresso do canto das aves, o brotar dos botões após a latência invernal. Não é muito exigente encontrar um espelho nesta transformação exterior para a nossa necessidade de um reviver interior. A semente necessária para a nova planta, deixa de a ser para a alimentar e elevá-la rumo ao sol vencedor. Da mesma forma, o indivíduo é convidado a despojar-se do que, em si, envelheceu para dar lugar a uma consciência e ânimo revigorados. O equilíbrio exterior das luzes pode encontrar eco numa harmonia interna.

Esta dinâmica de renovação também se observa no macro. Ideias, que outrora pareciam sólidas, estão hoje em declínio - morrendo - para permitir a emergência de visões menos cansadas. No cenário global, a luz crescente revela as insuficiências dos sistemas ultrapassados e acelera a transição de poder. Observamos as flutuações do domínio entre a razão, a força, a temperança, a imoderação. A história não é uma linha reta, mas um movimento de transformação onde o velho tem de ceder para que o novo possa prosperar.
O equinócio da Primavera recorda-nos que a realidade é marcada por uma mutabilidade quase cíclica. Estamos inseridos numa espiral ascendente onde os ciclos rimam entre si, mas nunca se repetem na sua substância original. Cabe-nos, portanto, compreender este ritmo para melhor navegarmos nas marés do tempo. Vivemos agora a Primavera, mas com a consciência de que o Verão, o Outono e o Inverno se seguirão - no seu devido tempo. Os novos agentes e vontades, que marcham expansivos nos mercados ideológicos, envelhecerão. Viverão outras Primaveras no lado de lá do espelho - um espelho exigente onde dificilmente sabemos se o novo é novo, ou é velho rejuvenescido.

António Carraco dos Reis

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