Liberdade é, para mim, uma condição essencial, universal e com algo de sagrado no código social e no funcionamento do mundo - da forma como, creio que, a maioria de nós gostaria que fosse. Sobre isto, para mim, não há “mas”. Há, certamente, vários “mas” tangenciais a isto.
A liberdade tornou-se uma palavra fácil. Perigosamente fácil, independentemente do lado da trincheira. Usa-se com ligeireza, invoca-se como álibi quase automático, empobrecesse-o quase ao nível de uma condição natural, biológica do ser humano e dos seus compatrícios do reino animal. A meu ver, confundimos facilmente liberdade com ausência de travões, como se qualquer limite fosse uma agressão e qualquer contenção uma forma disfarçada de censura. Tenho poucas dúvidas de que esta confusão não é inocente - é confortável.
Creio que ser livre não se esgota em fazer o que me apetece - isso pode ser mais próximo da espontaneidade. A espontaneidade, embora importante na vida, não é critério suficiente para a orientar. Estou convicto de que uma sociedade que eleva a espontaneidade a valor supremo abdica de pensar o que faz com o poder-de-escolher. Troca a responsabilidade pelo impulso e chama-lhe emancipação - talvez para dormir melhor.
Kant sacode-nos com a ideia de que só somos livres quando fazemos o que não queremos, isto é, quando não nos limitamos a obedecer ao impulso ou à inclinação do momento e nos alinhamos com o que consideramos como devido.
A liberdade exige estrutura, não no sentido policial ou repressivo, mas no sentido formativo. Exige consciência do que se vai fazer ou dizer, do que se sacrifica e do que se aceita como consequência. Sem esse trabalho interior, a liberdade degrada-se rapidamente em reação: reage-se ao que incomoda, reage-se ao que limita, reage-se ao que exige. Mas reagir não é escolher. Reagir é apenas responder ao estímulo mais cheio do momento.
Falo disto também por experiência própria. Sei como é confortável confundir vontade com direção, o impulso com a decisão. Mas sei igualmente que quando tudo é reação, parece que nada é realmente nosso. E o mesmo acontece na vida coletiva: creio que uma comunidade que reage permanentemente perde a capacidade de se reconhecer e orientar.
Cobre-nos uma nuvem em que é fácil confundir apelo à disciplina com autoritarismo e qualquer referência ao dever como moralismo - é importante não confundir esta frase com uma negação da presença do autoritarismo ou do moralismo no nosso mundo, até no nosso bairro. Tenho poucas dúvidas de que a sombra dessa nuvem não só não é mais liberdade, como tende a ser menos. Menos capacidade de decidir com Razão, menos autonomia real, menos espessura humana. A liberdade que não aceita esforço acaba por ser administrada por outros, por um qualquer “mercado” - seja-o de facto ou não -, pela opinião mais audível ou pelos ruídos mais apelativos da atualidade.
Escolher implica renunciar. Esta é, talvez, a ideia mais impopular nas arenas políticas do nosso tempo. Mas estou convicto de que não há liberdade sem perda, não há decisão sem exclusão, não há vida orientada sem hierarquia de valores. Fingir o contrário é infantilizar o indivíduo e empobrecer a vida comum. Uma pólis feita de cidadãos que recusam renunciar é uma pólis frágil, facilmente conduzida por quem sabe pintar com essa paleta de emoções fortes - seja destro, esquerdino ou ambidestro.
Uma sociedade madura não é aquela onde tudo é permitido, é outra onde os indivíduos sabem porque permitem certas coisas em detrimento de outras. A liberdade não floresce no vazio (tenho a minha dúvida pessoal sobre se qualquer coisa o pode fazer); floresce num terreno trabalhado. É um direito de todos mas que só é colhido quando é previamente cultivado: seja pelo próprio, pela comunidade ou pelos delegados formais das escolhas de todos e cada um. Diz quem cultiva, eu acredito, que cultivar dá trabalho, demora mas ensina a espera e a paciência - virtudes pouco sexys neste mundo mais líquido que sóbrio, mas fundamentais tanto na vida pessoal como na vida coletiva.
Talvez devêssemos começar por uma distinção simples, mas honesta: nem tudo o que é espontâneo é livre, e nem tudo o que limita oprime. A liberdade verdadeira dá-se quando deixamos de confundir vontade com direção e passamos a assumir, sem dramatismo mas sem fuga, o peso de escolher quem queremos ser, como pessoas e como comunidade.
António Carraco dos Reis
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