Ser finito no infinito é uma das experiências mais enigmáticas da condição humana. Vivemos num Universo cuja vastidão ultrapassa a nossa capacidade de compreensão. As galáxias estendem-se por distâncias inimagináveis, as estrelas nascem e morrem em ciclos de milhões e milhões de anos, e o próprio tempo cósmico parece não ter fronteiras. No entanto, no meio dessa imensidão, cada um de nós dispõe apenas de algumas décadas de existência física. Somos por breves instantes conscientes num cenário aparentemente Eterno.
Esta consciência da nossa finitude pode provocar inquietação. Sabemos que o tempo que temos é limitado. Há um início e haverá um fim. Entre esses dois pontos desenrola-se a nossa história pessoal, feita de escolhas, encontros, perdas, aprendizagens e sonhos. A pergunta que inevitavelmente surge é simples e profunda: como viver a nossa vida no tempo finito que temos disponível?
Muitos procuram responder a esta questão através da ambição, da busca por reconhecimento ou da tentativa de deixar uma marca duradoura no mundo. Desejamos ser lembrados, deixar um legado, construir algo que sobreviva à nossa ausência. Perguntamo-nos quem se lembrará de nós daqui a cem anos. Os nossos nomes permanecerão na memória de alguém? As nossas palavras, os nossos feitos, os nossos gestos serão lembrados num futuro distante?
A verdade é que, para a maioria de nós, a memória coletiva será breve. Talvez os nossos bisnetos saibam quem fomos. Talvez algumas histórias circulem em conversas familiares. Depois disso, é provável que seja o total esquecimento. Perante esta realidade, podemos sentir desânimo ou, pelo contrário, uma estranha libertação. Se tudo é passageiro, então a pressão de sermos extraordinários para a eternidade perde peso. O que ganha importância é a qualidade do presente.
Viver com intensidade não significa viver em permanente excesso ou agitação. Significa estar verdadeiramente presente em cada momento. Significa ouvir com atenção, amar com autenticidade, trabalhar com dedicação e descansar com serenidade. A intensidade pode residir na profundidade com que experienciamos as pequenas coisas, não na quantidade de feitos grandiosos.
Viver com propósito é outro caminho possível. O propósito não tem de ser grandioso ou universal. Pode ser tão simples como cuidar da família, contribuir para a comunidade, exercer uma profissão com ética e paixão, ou desenvolver os próprios talentos. O propósito dá direção ao nosso tempo, orienta as nossas decisões e ajuda-nos a atravessar as dificuldades com maior clareza. Contudo, viver com propósito não implica viver preso a expectativas rígidas. Quando as expectativas dominam, transformam-se em fonte de frustração. O propósito deve ser uma orientação, não uma limitação.
Existe ainda a consciência de que, a qualquer momento, podemos ser chamados a deixar o «jogo existencial».
A vida é frágil. Um acontecimento inesperado pode alterar tudo. Esta possibilidade, longe de nos paralisar, pode servir de aviso e reflexão. Se o tempo é incerto, então cada dia ganha valor. Cada gesto conta. Cada palavra dita, cada silencio, pode fazer a diferença.
Aproveitar o tempo que nos é dado implica também escolher com cuidado onde colocamos a nossa energia. Muitas vezes dispersamo-nos em preocupações que pouco acrescentam, em comparações constantes, em conflitos desnecessários. O tempo é um recurso limitado e irrepetível. Aplicá-lo bem é um ato de responsabilidade para connosco e para com os outros. Reflectir sobre se aquilo que fazemos hoje está alinhado com aquilo que realmente valorizamos pode ser um exercício transformador.
Curiosamente, a felicidade raramente se encontra nas grandes conquistas. Muitas vezes reside nas coisas simples. Um almoço partilhado, uma conversa sincera, um passeio ao fim da tarde, o silêncio confortável ao lado de quem amamos. São instantes aparentemente banais que, vistos à distância, compõem a verdadeira riqueza da nossa existência.
Ser finito no infinito não é uma condenação, mas uma oportunidade. A nossa brevidade dá significado às escolhas. O facto de o tempo ser limitado torna cada momento precioso. Talvez não sejamos lembrados daqui a cem anos. Talvez o Universo continue o seu curso indiferente às nossas histórias. Ainda assim, enquanto aqui estamos, podemos viver com consciência, intensidade e propósito. E isso, por si só, já é extraordinário.
António Ambrósio
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