A nossa época padece de uma obsessão estranha pelo inanimado - no sentido de sem alma, inumano - e, por consequência, de um medo quase patológico da rutura. Rodeados por ecrãs, geometrias impecáveis e a tirania estética das redes sociais, fomos educados na mais cruel das prisões modernas: a ditadura da vergonha. Exige-se do indivíduo que funcione sem interrupção, que atravesse o crisol da dor sem que uma única ranhura denuncie o sofrimento passado. Ideologizou-se a ilusão de uma vida linear, onde a vulnerabilidade é vista como uma avaria e a cicatriz como uma deformidade que deve ser escondida, por vergonha de já não se ser o que se era antigamente.
Todavia, sob o brilho dessa invulnerabilidade artificial, esconde-se uma terrível esterilidade. Falam os arautos do literalismo moderno que a dor real é apenas gangrena e poeira, e que procurar nela um sentido é um exercício de vaidade. Que lamentável miopia! Recusar o laivo do impacto, blindar a alma para que ela nunca sofra uma fissura, é abdicar da nossa maior prerrogativa humana: a capacidade de ser iniciado pela queda. Não se trata aqui de higienizar o sofrimento ou de exigir dele uma coreografia graciosa; a dor, na sua crueza mais opaca, é o cinzel involuntário da existência. O erro - seja ele o golpe cego do destino ou a fratura que nós próprios provocámos ao ousar um voo mais alto - é o único portal de que dispomos para aceder à transcendência.
Longe de ser um acidente caótico, a falha e o seu vestígio são o reflexo na carne das constantes e tremendas dinâmicas do próprio universo, o qual respira num movimento perpétuo de expansão e contração. Diante das ruínas de si mesmo, o Homem livre não mendiga a complacência do mundo, nem se resigna ao papel de vítima inerte; assume a autoria da sua história e clama: «Fui eu que as causei, foram elas que me esculpiram, e eu coroo-as com o ouro da minha vontade».
É aqui que o pensamento nipónico nos oferece a lição perene do Kintsugi. Diante de uma porcelana partida, o mestre oriental não procura o restauro invisível. Não há ali o desejo vil de simular uma integridade que se perdeu por vergonha do acidente. Pelo contrário, a quebra é celebrada como o instante do batismo do objeto. Os pedaços dispersos são recolhidos e unidos através da laca urushi, uma seiva orgânica colhida de árvores que sangram para se curarem. Esta resina viva, ao ser coroada com pó de ouro, transforma a linha de fratura no elemento mais luminoso da peça. A porcelana nunca mais recuperará a sua simetria primeira, mas ganha uma dignidade soberana; transfigurou-se num milagre único de luz e argila. Para habitar este mundo de sobressaltos, não precisamos da rigidez insensível dos metais, mas sim da perseverança. A perseverança é o ato litúrgico de recolher pacientemente os escombros, aplicar a resina do tempo e, com o ouro da aceitação, reconstruir-se passo a passo, continuando ferozmente.
Existe uma simetria perfeita e comovente entre o desígnio deste mestre oriental e a própria biografia do corpo humano: pensemos na barriga de uma mulher que foi mãe. Há quem, na pressa de um escrutínio ideológico e rasteiro, pretenda ver nesta analogia uma afronta, argumentando que a gestação é plenitude e não fratura. Esquecem-se, na sua leitura literal, de que todo o crescimento sagrado exige uma rutura interna; que para dar lugar à vida, a carne tem de ceder, esticar-se e, num sentido místico, clivar-se. Sob a soberana feitura da vida, a carne cumpre a sua função sagrada deformando-se, e essa deformação deixa marcas indeléveis: as estrias, os caminhos gravados na pele de quem se moldou para gerar o porvir. Aquela barriga jamais voltará a ter a harmonia inicial, e o mundo contemporâneo, na sua frivolidade plástica, convida tantas vezes as mães a olharem para si mesmas com vergonha.
No entanto, o gesto do artífice do Kintsugi, ao passar o seu pincel com reverência e pó dourado sobre as feridas da porcelana, é exatamente o mesmo gesto da humanidade que se inclina para adorar, beijar e respeitar cada estria, cada verdade tatuada no ventre de uma mãe.
Relembro, a este propósito, a página de um velho romance que descreve o instante de intimidade partilhada com uma jovem mãe, cujo corpo trazia as profundas estrias do seu primeiro parto. Diante daquela quase nudez, a jovem trazia os olhos marejados da vergonha que o mundo lhe gravara na alma, cobrindo o ventre como quem escondia uma ruína. Ao inclinar-se para lhe beijar a barriga, ao acolher com os lábios aquelas marcas, o homem não o fez num ato de condescendência ou validação exterior, mas sim num gesto de pura testemunha mística. O amor verdadeiro não valida a beleza; reconhece-a, e não precisa de a declarar - o amor ecoa no âmago e ressintoniza a identidade. Aquele sorriso feminino que ali se libertou não foi o eco de uma dependência, mas sim do rugido de quem se sabe, finalmente, decifrada na sua verdade mais profunda. Ela compreendeu, ali, que a sua porcelana já não era apenas porcelana: mas valiosa porcelana revigorada, dourada-em-si-mesma-e-por-si-mesma.
Olhar para essa barriga castigada pela fricção da vida e pelo milagre do nascimento é contemplar o espaço onde cabe o ouro da nossa existência. Não há ali falha por fraqueza, há o registo visível de um cálice que cumpriu a sua missão mais nobre. Ambos os lados da moeda revelam a mesma liturgia: o mestre que coroa a cerâmica com pó de ouro e o olhar humano que venera as marcas do ventre materno celebram a beleza viva que nasce do atrito, do sacrifício e da verdade.
Abraçar a «falha» e a «dor», não como uma vergonha desfigurada, mas como o rito de passagem necessário para o nosso autocumprimento doloroso, é um desafio que todos podemos aceitar.
António Carraco dos Reis
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