Ontem também não fiquei em casa.
Se estivermos atentos, vemos que a nossa cidade existe. E não é só de agora!
Há vários anos que tenho o privilégio de sentir que a Figueira da Foz existe. E este jornal deixa esta verdade clara.
Tanto na Figueira na Hora, como na Figueira na Vida, é possível perceber que há forças vivas no nosso território - mais ou menos centrais, mais ou menos públicas, mais ou menos mediáticas, mais ou menos sólidas. O que há em comum entre elas? Todas, dentro da sua capacidade, contribuem para o adensamento de uma agenda social e cultural do concelho, que permite ao figueirense-médio sentir, como eu sinto, que há contextos para nos enriquecermos, partilharmos conhecimento e experiências, divertirmo-nos e viver este território e este tempo a partir de outros olhos.
Verifico que, na maioria das vezes, o preço do ingresso não é um filtro para exclusão - até porque não o há.
Numa semana que começou domingo, como nas anteriores, é possível escolher não ficar em casa - se for essa a nossa vontade - e sair para respirar o ar da noite, com novos ventos de cultura, arte, pensamento, ou acção social e solidária.
É fácil comparar a Figueira, procurando diminui-la, com capitais de distrito (sim, parece que os distritos ainda existem). É fácil comparar com Aveiro, Coimbra, Leiria, ignorando que a Figueira não é Aveiro, nem Coimbra, nem Leiria. Não goza da centralidade administrativa destes núcleos, não se alimenta tão intensamente dos frutos de universidades ou politécnicos inteiros. Pode não ter, também pelo exposto, a mesma massa crítica ou o nível de desenvolvimento socioeconómico, mas também pode ter essas e outras coisas que tem.
A periferia geográfica não tem de ser uma condenação à periferia do espírito.
Sem ter nada disso, é tudo isso.
Ontem também não fiquei em casa.
Assisti a uma conferência de um Clube de Lions do nosso burgo. E sabem que mais? Ontem também foi muito bom - especialmente bom.
Ontem manifestou-se um triângulo de forças de cidadania que se envolveram para fazer coisas. Para dar coisas. Para partilhar o seu melhor e, com o melhor dos outros, fazer do tempo uma base para se manifestar algo que valeu a pena.
A Assembleia Figueirense cedeu o seu belíssimo salão nobre, o Lions Clube Figueira da Foz Centro montou mais uma janela de oportunidade mensal de reflexão e confronto com o diferente no nosso quotidiano, o Maestro Vítor Ferreira e o «seu» grupo coral Maestro David de Sousa responderam várias vezes, com várias abordagens, à pergunta proposta: «Cantar em coro é, afinal, para quem?». A resposta pareceu fácil e banal. Já lá vamos.
É importante percebermos que estas instituições também são as pessoas que as constituem. Não é menos importante percebermos que, sendo pessoas, são como todas as outras - com belas qualidades e tremendos defeitos. Diria que o mais importante é perceber que, neste jogo de cartas a que chamamos comunidade, temos, pelo menos, duas opções: ou nos focamos na nossa diferença para sustentar um não, uma parede, um nada que não chega a ser vazio (apesar de surgir de vazios nossos); ou nos focamos na nossa diferença para preencher alguns vazios que temos, por muito que não gostemos do feitio do nariz, do erro, do episódio anterior.
Ontem preencheram-se vazios. Cada «pequena» parte deu a sua melhor parte. E com pouco fez-se muito.
Mas ontem não deixou de ser «só ontem». A convicção que tenho é que, todos os dias, como num coro, narizes diferentes, vozes diferentes, textos diferentes, emoções diferentes existem e são reconciliáveis para um fim comum: a polifonia harmoniosa e frutífera da cidade que existe.
Ontem também não fiquei em casa e passei a saber que cantar em coro é como a vida; cantar em coro é como a partilha; cantar em coro é como fazer cidade. É o oposto do solipsismo, da ilusão de que podemos viver isolados no nosso próprio mundo.
Cantar em coro é, afinal, para todos.
(António Carraco dos Reis)
|
Inicie sessão
ou
registe-se
gratuitamente para comentar.
|

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.
design by ID PORTUGAL