Hoje, dia 5 de Maio, ao cruzarmos o Dia Mundial da Língua Portuguesa com o Dia Mundial da Higiene das Mãos e o Dia Internacional da Parteira, percebemos que o que está em causa, ainda que de forma implícita e simbólica, é a nossa capacidade de agir sobre o futuro.
Historicamente, o simples ato de lavar as mãos foi uma das maiores revoluções na saúde das sociedades. Não foi apenas uma descoberta médica; foi o salto que permitiu que as comunidades se desenvolvessem com maior estabilidade. Ignaz Semmelweis, em 1847, demonstrou que lavar as mãos com cloro reduzia drasticamente a mortalidade materna por "febre do parto" - gesto que poupou inúmeras vidas. As mãos são a nossa primeira ferramenta de trabalho, mas são também pontos de contacto e contágio. O que fazemos com elas - se espalhamos saúde ou doença, construção ou indiferença - depende sempre da nossa vontade e empenho.
É por isso que não podemos confundir a higiene com o gesto de Pôncio Pilatos. A cobardia de lavar as mãos, numa qualquer bacia de “demorgia” para se afastar da responsabilidade, é um contágio passivo, ético ou moral que, em última instância, adoece a cidade - numa espécie de pena-omissa de morte.
Precisamos, sim, de lavar as mãos para lhes dar corpo e peso, preparando-as para a responsabilidade de continuar a nossa história. Esta ação é tanto mais forte quanto mais e melhor for sustentada pela coerência lógica e restante capital imaterial que herdamos com a nossa Língua Portuguesa. Não a celebramos apenas por tradição, mas porque ela é a estrutura do nosso pensamento, a primeira fronteira da nossa liberdade. Quanto melhor conhecermos e namorarmos a nossa língua, melhor planeamos, melhor comunicamos. Torna-se mais familiar, compatível com o outro e “contaminadora” a ação que queremos produzir. Para mim, um povo que domina a sua língua é um povo que detém uma ação mais consciente e poderosa - e menos escravo do “pensamento” alheio.
É com este pensamento que entramos no "Maio, Mês do Museu". As nossas unidades museológicas e equipamentos culturais são mais do que depósitos de objetos parados; são o lugar onde o passado e o futuro se encontram num mistério que temos de desvendar. Esse "tirar de venda" exige a ação, e não apenas para a espera infértil de que um qualquer vento a desate e faça voar - principalmente porque podemos não conhecer a força, sentido, nem proveniência desse vento. Ao participarmos na vida dos museus, através do nosso trabalho, da nossa instrução e da preparação das novas gerações, estamos a assumir o papel de "parteiros" da Figueira-que-ainda-não-conhecemos.
Não creio que o futuro seja algo que acontece por acaso. Ele será o resultado da falta das nossas mãos, se escolhermos a mácula da indiferença, ou do que nós construirmos com elas, se aceitarmos o compromisso de dar continuidade à nossa história, a cada dia. A responsabilidade é o que purifica as mãos para o trabalho que temos hoje e pela frente, unindo a higiene do corpo à lucidez do espírito.
António Carraco dos Reis
|
Inicie sessão
ou
registe-se
gratuitamente para comentar.
|

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.
design by ID PORTUGAL