Como o sol mergulhava no horizonte salgado, as redes desciam das mãos daquele homem-sem-rosto para o leito do Mondego - onde as lampreias sobem as águas rumo à desova ou aos pratos de quem, por cá, come. Este quadro dourado-escuro foi-me dado a ver na tarde de ontem, a partir do Cabedelo pesqueiro, quando fitava a pequena embarcação entre nós e os Paços do Concelho. As chuvas são importantes para a abundância da lampreia, e têm havido, mas ela não se pesca sozinha.
Também ontem foi o anoitecer da Bolsa de Turismo de Lisboa. A Figueira da Foz foi Município Convidado de 2026. Nos dias anteriores deram-nos à costa imagens e testemunhos provindos da capital. O Município, como o velho homem, lançou as redes que tinha para capturar o que não tinha e de que precisa - peixe vivo, a mexer.
Chove todos os anos. Todos os anos os territórios são visíveis em balsas como a Bolsa de Turismo de Lisboa. Este ano choveu demasiado; o Baixo Mondego inundou como não se via há muito tempo. Este ano, o destaque para a nossa terra tornou os canais até à Figueira mais navegáveis, mais navegados. Há quem diga que muita chuva também estraga a pesca da lampreia.
O que sei - sabendo nada sobre pesca - é que, quer as nuvens descarreguem muito ou pouco, o velho pescador lança as redes da incerteza, que se afundam até onde as bóias da esperança o permitem, e o barco que rumou a montante deixa-se levar pela corrente branda mas incessante, até ao momento de ligar o motor e procurar novamente a nascente.
O turismo, o Mondego e a lampreia desaguaram na Figueira da Foz. O trabalho foi feito com o que se sabia, com o melhor que se tinha, com mãos mais e menos calejadas.
Enquanto escrevo estas palavras, recolhem-se as redes, aqui e lá; o sol que mergulhara já ameaça renascer. Vem um dia novo. Logo saberemos quantas lampreias vieram no barco. Comeremos e beberemos. Mas o dia novo far-se-á dourado outra vez, e homens-sem-rosto terão de lançar as mesmas e novas redes, com novos calos nas mãos, em balsas que sobem e descem.
A lampreia não vai para a mesa sozinha.
António Carraco dos Reis
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