A Pi acabou de encaixotar o Natal de 2025

O tempo escapa-nos como nos escapa a água por entre os dedos das nossas mãos apertadas em concha. Nada o segura, nada o espanta, de nada valem as panelas e as tampas numa ou noutra situação, ele é soberano e imparável.
Quando a Pi estava a preparar a hibernação das decorações do natal de 2024 aproximou o "Toninho" ao focinho curioso nossa Bianca que tanto gostava dele. O "Toninho" é assim chamado em memória dum avô da Pi. É um Pai-Natal com cheganças ao Avô Gepeto, enfim..., mais uma daquelas chinesices que nós aceitamos irrefletidamente, mais uma adulteração desrespeitosa às nossas tradições - mea culpa por consenti-la ao comprá-lo -, desta vez um desrespeito àquele gordinho das barbas brancas que tanto reverenciei na minha inocente infância.
- Dá um beijinho ao teu amiguinho, agora só o voltamos a ver quase no final do ano, e..., quem sabe quem é que cá estará? - escapou-lhe o secreto temor nestas palavras.
Ela, a Bianca, era uma companheira sempre participativa. Cheirou-o com o rabito a abanar, enquanto ele, imóvel, hirto, deitado de barriga para cima, desaparecia no fundo daquela caixa, soterrado por bolinhas de muitas cores; fitas de sininhos sem as luzes a piscar; coberto por neve de algodão, daquela que não causa frio, daquela que nunca derrete, nem com o calor; ainda em cima dele ficou a manjedoura; uma vaquinha deitada, um burro em pé, mais os três reis: Belchior, Gaspar e Baltasar e os respectivos camelos; umas quantas ovelhinhas sem os respectivos pastores, estes não entraram porque tinham ido espalhar a Boa Nova, ah! e no cimo a estrelinha que os guiou ao Menino. Do ouro, do incênso e da mirra nada sei. Por respeito e especial reverência o Menino, Maria e José são confortados com algodão e guardados à parte.
Quem sabe quem é que cá estará? Elas causaram-me um sobressalto e machucaram-me. É! Quem sabe quem é que cá estará? Avançam as nossas idades e as dos nossos amigos e a da Bianca que dos seus vetustos catorze anos ainda sorri à vida, apesar das cataratas que já a atrapalham durante a noite, já não segura a urina, está mais lenta e dorme muito mais. "Está idosinha".
Quem sabe quem é que cá estará?! É! Quem sabe? Infelizmente, não esteve a nossa Bianca. Nos preparativos, na reabertura da caixa dos enfeites, ela já não esteve presente para receber o, também seu, "Toninho". Este natal de 2025 foi mais triste. Foi uma "festividade" sem festa, sem cor e sem brilho. Crescem as ausências a cada ano que passa, cresce o desconforto da saudade, crescem os lugares vazios à roda da mesa, diminui a azáfama da véspera da consoada, teimamos em celebrá-lo pelas boas memórias e pelas muitas memórias que sempre guardaremos. Sentamo-las connosco à mesa. Preservamos alguns pratos e alguns sabores, pouco mais. Mas..., aumenta em nós o temor: Quem sabe quem é que cá estará? É! Este pensamento causa-me sofrimento!

Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 6 de janeiro de 2026.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anteriores ao actual (Des) Acordo ortográfico. Reservados todos os direitos de autor.

 

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