A Tristeza é Pecado?

?Antes de ontem também fui à missa.
?Quem está mais próximo de mim sabe da honesta admiração que tenho pela pessoa, capacidade e engenho catequético do Padre Orlando Martins - Pároco de São Julião (Figueira da Foz).
?No dia 26 de Maio, dia de São Filipe Néri, a assembleia ali presente foi agraciada por uma pertinente provocação sobre a tristeza (tristitia) no dia do santo que habitou na alegria e no bom humor.
?Sob a premissa de que “Um santo triste é um triste santo”, a homilia mergulhou, por alguns segundos, para algures entre os séculos IV e V da nossa era, no Egipto, para perto do asceta Evágrio do Ponto. No seu percurso monástico, este desceu do Mar Negro (Ponto, na atual Turquia) rumo à vivência do deserto, onde se estabeleceu numa comunidade no Baixo Egipto.
?Uma das marcas deste pensador foi a proposta de que há oito vícios, os chamados logismoi, que funcionam como autênticas doenças espirituais e barreiras para o caminho da paz interior (apatheia).
?O primeiro grupo é das Paixões Concupiscíveis, referentes a necessidades do corpo material: Gula (Gastrimargia), Luxúria (Porneia) e Avareza (Philargyria).
?O segundo grupo é das Paixões Irascíveis, referentes às reações afetivas e volitivas do indivíduo perante o mundo: Tristeza (Lupe), Ira (Orge) e Acédia (Akedias).
?O terceiro grupo é das Paixões Intelectuais, referentes às ilusões e desvios do espírito humano: Vanglória (Kenodoxia) e Soberba (Hyperephania).
?Desta lista, há dois vícios que já não são tão familiares ao universo católico contemporâneo: a Tristeza (Lupe) e a Acédia (Akedias). A distinção essencial entre ambos, aos olhos da altura, residia na génese e no foco do esmorecimento da alma. A Tristeza era entendida como uma reação nostálgica à frustração de um desejo terreno, em que o indivíduo definhava pelo apego ao que lhe faltava. Já a Acédia configurava um desânimo existencial mais profundo, um tédio e asco absoluto perante o momento presente e os deveres sagrados. Em suma, enquanto o triste sofria pelo objeto que perdeu no mundo, o acedioso desesperava pelo vazio que encontrava em si mesmo, sendo ambos condenados por paralisarem a esperança na Salvação e a capacidade de amar.
?Esta estrutura de oito enfermidades espirituais acabou por sofrer uma profunda metamorfose teológica no século VI, pelo Papa São Gregório Magno, encontrando a sua formulação definitiva no século XIII, com São Tomás de Aquino. Na reorganização conceptual, a Tristeza e a Acédia perderam o seu estatuto de vícios autónomos e foram fundidas na categoria da Preguiça. A justificação por trás desta absorção residia talvez na íntima conexão psicológica entre os dois males, pois a Igreja compreendeu que o desânimo da acédia e o abatimento da tristeza partilhavam da mesma raiz paralisante. Assim, a Preguiça medieval não foi definida como mera indolência física, mas sim como a evolução direta desse desespero anímico - uma lassidão do espírito que, asfixiado pelo desgosto e pelo enfado das coisas divinas, renunciava ao esforço da virtude e à alegria da conversão.
?Devemos ainda tomar nota de outra fusão operada na transição para o Ocidente: a Vanglória (Kenodoxia) e a Soberba (Hyperephania) uniram-se sob a forma de Soberba (Superbia) - tida como o pecado dos pecados, a raiz primeira de todos os desvios na medida em que instala a vacatura do lugar de Deus no coração dos Homens. Por último, na passagem definitiva das oito doenças do deserto para os sete pecados capitais, registou-se ainda a introdução da Inveja nesta fórmula final, um vício decorrente das dinâmicas sociais e do convívio comunitário que ganhou relevo quando o modelo de análise se estendeu do isolamento dos monges para a sociedade em geral.
?Trazer esta reflexão para os dias de hoje exige, antes de mais, uma distinção justa e compassiva. A tristeza compreensível - como o luto pela perda de alguém ou a dor pelas rasteiras da vida - é natural e humana. Da mesma forma, a depressão e a ansiedade são doenças clínicas que exigem tratamento médico e apoio, nunca culpa ou julgamento moral. O "pecado da tristeza" de que falavam os antigos nada tem a ver com estas fragilidades; aplica-se, sim, a uma postura de revolta e ingratidão perante a própria vida.
?Esta antiga tristitia manifesta-se agora na nossa sociedade de consumo através da insatisfação crónica. Bombardeados por anúncios de vidas perfeitas, entristecemos não apenas por nos faltar o essencial, mas porque talvez tenhamos sido levados a procurar o essencial no acessório. É uma tristeza que nasce do egoísmo e da inveja, e que nos cega para as coisas boas que já temos. Deixamos de agradecer e passamos a amargar, fechando o coração aos outros.
?Por fim, a velha acédia regressa hoje disfarçada de um cinzento tédio existencial, a autêntica maleita de uma sociedade saturada de estímulos e órfã de sentido. Numa era de distrações efémeras, o homem contemporâneo paradoxalmente enfarta o corpo e anestesia o espírito, resvalando para uma apatia cínica que o torna incapaz de se deslumbrar ou de se comprometer com o próximo. É a paralisia da alma que rejeita a comunidade e se tranca no isolamento. Contra este desânimo anestesiante, o testemunho e o bom humor de São Filipe Néri agigantam-se como um manifesto de perene atualidade: a alegria cristã não é uma alienação ingénua, mas sim uma audaz decisão da vontade e um bom antídoto capaz de contribuir para a elevação da comunidade através do amor ativo e da leveza do espírito.
No fundo, estamos a abordar matérias onde a visão espiritual e a ótica secular naturalmente divergem, o que enriquece ainda mais a reflexão sobre a nossa condição.
?A pergunta que deu mote a estas linhas - se a tristeza é, de facto, pecado - formalmente, ela pertenceu à linhagem dos grandes vícios da alma na aurora da Igreja, acabando mais tarde por ser absorvida pela vasta abóbada da Preguiça Espiritual. Fica-nos, porém, a lição sólida de que o desespero e o enfado da alma são obstáculos à Esperança e à vivência do amor.
?Eu desconhecia isto. A homilia, que não terá seguido os 6 minutos, também não aprofundou esta matéria em detalhe. Levantou o véu com um sorriso, quiçá, ao estilo de Néri.
?Saí de São Julião a pensar nisto. E no caminho de regresso a casa, algures na ponte Edgar Cardoso, pensando em aprender sobre estes pontos e escrever esta crónica, compreendi que a bonomia do generoso pároco nos pedia algo muito simples: saber sacudir o cinzentismo dos dias e redescobrir, num sorriso partilhado, o verdadeiro rosto da Graça.
?Ontem não fui à missa e terei, certamente, perdido um belo desafio para reflexão e alimento de mudança.
?Perdi muito mais.

António Carraco dos Reis

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