Ontem celebrou-se o Dia Internacional dos Museus. Na Figueira da Foz, o nosso Museu Municipal Santos Rocha assinalou a efeméride com a inauguração de uma exposição-homenagem-temporária - permitam-me o duplo hífen -, intitulada “Rako / Da Figura ao Essencial”.
Saúdo, por isso, o Município pela decisão e a associação “Odezanove de junho / Associação e ideias” pela curadoria desta mostra que, nas palavras do Professor Chuva Vasco no seu discurso de abertura, se assume “sem coerência, mas que reúne uma mini mostra” do trabalho de Rako. Esta aparente ausência de coerência não será uma falha; é, creio, espelho fiel de uma obra livre e irrequieta. Naquele espaço-tempo, coabitam os frutos da pintura, da escultura, do design gráfico, da publicidade e da caricatura - gavetas múltiplas onde tentamos, em vão, catalogar uma mente, um corpo e um espírito que criaram a partir da Figueira da Foz.
No momento do corte da fita, sem tesoura, reunia-se um grupo heterogéneo de visitantes. Misturavam-se idades, profissões e sensibilidades; uma moldura humana encorpada por familiares, colegas, amigos, admiradores e até pelos visitantes orgânicos que palmilhavam aquele brilhante equipamento da nossa cidade.
Colocar Rako como busto desta celebração internacional foi um ato de justiça e de feliz intuição, coroado pelo lema que o ICOM (International Council of Museums) escolheu para este ano: “Museus a Unir um Mundo Dividido”. Sou tentado a acreditar que tanto Rako como António Santos Rocha simpatizariam profundamente com esta premissa, dado o empenho que ambos demonstraram, em vida, em unir o que está disperso.
A par do espólio, um slideshow fotográfico retratou-nos o Homem nas suas múltiplas dimensões: o espírito livre, o aprendiz eterno, o pai, o avô, o amigo, o companheiro, o viajante, o artista, o mestre e o maçom.
Rako, felizmente, conheceu em vida o reconhecimento da sua cidade. Desta vez, por imperativo da biologia, já não o pôde testemunhar fisicamente. Poderíamos lamentar esta inevitabilidade? Certamente. Mas prefiro ler o gesto simbólico da representante do museu, ao entregar a guarda da inauguração às mãos de José Santos Silva e Chuva Vasco, como um momento de passagem, testemunhado por nós, os outros, que ainda ficámos do lado de cá do espelho.
Rako deixou-nos recentemente, mas a sua presença permanece viva. É através da nossa memória, do diálogo continuado, tolerante, e de boas iniciativas como esta, da sua família, que o aproximamos da intemporalidade daquele Oriente Eterno onde, como o próprio certamente diria, agora se encontra.
Foi, acima de tudo, um momento de verdade e de justiça.
(António Carraco dos Reis)
|
Inicie sessão
ou
registe-se
gratuitamente para comentar.
|

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.
design by ID PORTUGAL