Peregrinos, a oportunidade que nos escolhe

As janelas são os pontos das nossas casas por onde a luz escolhe entrar. Nelas, temos sempre uma decisão a tomar: podemos apenas olhar para o que passa ou podemos, verdadeiramente, ver o que está diante de nós. Foi precisamente num desses momentos, de café na mão e olhar pousado na paisagem, que vi os pontos amarelos a recortarem-se no horizonte. São os coletes dos peregrinos que, com a aproximação do 13 de maio, traçam o seu rumo a Fátima.

Esta observação despertou-me para uma realidade que Schopenhauer descreveu com precisão: "A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir". Na nossa gestão pública, tantas vezes ansiamos por atrair visitantes, mas quando eles nos passam à porta, caímos no tédio de os dar como garantidos e não cuidamos do que já temos.

O destino baralhou as cartas com o encerramento da Ponte Edgar Cardoso, e é justo reconhecer que a Câmara Municipal da Figueira da Foz soube jogar bem a mão que lhe coube ao garantir a alternativa do transporte fluvial. Mas também devemos reconhecer que, apesar dos constrangimentos que se impuseram, os caminheiros escolheram continuar a querer passar por nós. A decisão política deve saber transformar o remédio em oportunidade. Hoje, com a nossa Ponte Edgar Cardoso finalmente requalificada, voltamos a ter a infraestrutura ideal para formalizar o que o povo já escolheu. Se fomos eficazes na emergência, sejamos agora visionários na estratégia.

Esta visão para a criação oficial do Caminho da Costa de Prata não pretende "ensinar" nada ao peregrino, mas sim reconhecer a sua inteligência. Há décadas que, pelo "boca a boca", milhares de pessoas escolhem a Nacional 109 como o seu corredor de eleição. Este trajeto, que liga Aveiro, Mira e a Tocha à Figueira da Foz, seguindo depois para a Guia até reencontrar o caminho tradicional, já é uma realidade viva. Os grupos de peregrinos são muitos, diversos, há anos exemplos claros daquilo que hoje chamamos inclusivos. Várias gerações, profissões, motivações, papéis desempenhados - numa aparente espontaneidade que não é menos do que brilhante organização popular - sem aspirar lucro, sem aspirar status; aspirando o companheirismo, o fazer caminho, o cumprir, o ser parte, a luz. “Somos mais de oitenta, fazemos o caminho duas a três vezes por ano, passamos sempre por aqui. Foi assim que o nosso fundador começou há mais de 40 anos”, explicou-me uma peregrina quando desci da janela e saí para a realidade que eles traziam - o fundador deixou de caminhar e viver há mais de sete anos, e eles continuam ostentando a sua cara nos coletes e camisolas; era profissional de saúde.

Ao contrário do caminho do interior, mais duro e acidentado, o Caminho da Costa de Prata oferece a vantagem de um trajeto plano. Esta planície, aliada ao alento da maresia, é uma dádiva para o corpo cansado. O peregrino já sabe disto e investe em nós há anos, abastecendo-se no nosso comércio e pernoitando nas nossas terras. Falta-nos agora, em diálogo com os municípios vizinhos e as entidades promotoras dos Caminhos de Fátima, sermos nós próprios peregrinos, fazendo o caminho para formalizar e dar dignidade a este percurso.

Tal como nas janelas, temos de escolher entre apenas olhar ou realmente ver. Podemos continuar com uma "janela de ornamento" ou abrir uma janela de oportunidade para o nosso território através deste Caminho da Costa de Prata. O desafio está lançado; que a eficácia demonstrada no passado seja agora o alicerce para um caminho de justiça, segurança e hospitalidade.

António Carraco dos Reis

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