(Opinião) Aeródromo: O Progresso a ser fonte de retrocesso

Na sessão de 30 de abril de 2026, foi autorizada a alteração do PDM da Figueira da Foz que abre caminho à construção de um aeródromo municipal, cujo custo está orçado em 18 milhões de Euros ao longo de 4 anos. Perante o movimento de recusa que este processo começa a suscitar na sociedade civil figueirense, o executivo camarário tem respondido catalogando quem considera o projeto caro, despropositado e supérfluo de anti-progresso ou imobilista.
A discussão política colocada nestes termos torna os consensos impossíveis — e isso é uma pena, porque obras estruturantes e onerosas como o aeródromo, ou o futuro pavilhão multiusos, deveriam ser alvo de uma explicação cabal e pormenorizada de todos os prós e contras, de forma que o seu apoio dentro da sociedade figueirense fosse o mais amplo possível. Tal é especialmente importante porque os impactos desta obra ultrapassarão em muito a vigência do atual executivo camarário, independentemente de como foi expressiva a última eleição autárquica.
O aeródromo tem sido apresentado como um projeto lucrativo e essencial ao progresso do concelho — um projeto que nos permite "ganhar asas", "almejar mais alto", um "imperativo estratégico". As palavras são cuidadas e remetem para objetivos elevados. Escondem, porém, uma dura realidade.
O argumento central deste projeto assenta numa fragilidade grave: não existe qualquer estudo de viabilidade económica aprofundado. As extrapolações apresentadas no relatório de fundamentação do projeto — que esboçam um cenário económico que não encontra paralelo em nenhum outro aeródromo municipal português — são aparentemente sustentadas por um documento que reconhece explicitamente não ser adequado para traçar o cenário que nos é agora apresentado. Não é uma questão menor: é o documento que sustenta toda a viabilidade económica da obra.
E levanta uma pergunta óbvia — se este cenário não existe em mais nenhum aeródromo municipal do país, com que base se projeta que existirá aqui?
Como disse no único debate realizado durante as últimas autárquicas: governar em ambiente de escassez é definir prioridades. E é precisamente aí que reside o problema. A Figueira da Foz enfrenta custos de habitação elevadíssimos, transportes públicos ainda mal adaptados à realidade do dia a dia dos seus residentes, e uma pressão inflacionária que ataca violentamente as famílias portuguesas. A política de habitação do atual executivo representa, aliás, uma boa parte daquilo que defendo ser uma boa política pública nesta área — e é por isso mesmo que questiono se não valeria mais reforçar essa aposta com os recursos que aqui se pretendem investir.
Já foram explicados aos figueirenses os potenciais impactos negativos de um projeto desta grandeza? Impactos esse decorrentes da decisão política de investir um elevadíssimo valor inicial na construção da infra estrutura mas também os elevados custos de manutenção que se prolongarão por décadas?
Não seria preferível encomendar um verdadeiro estudo de impacto económico independente antes de avançar para a construção?
Não estaríamos a construir uma Figueira melhor para os figueirenses se canalizássemos estes recursos para quem aqui vive e quer continuar a viver?


Ou continuaremos a retroceder sob a capa do progresso?

Gonçalo Mano
Porta Voz do Grupo Coordenação Local do Distrito de Coimbra
(anterior candidato à presidência do Município da Figueira da Foz pela Coligação Evoluir Figueira)

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