O Dia da Criança que Somos

Celebra-se hoje o Dia da Criança. Todavia, reduzir a infância a uma mera demarcação no calendário seria um olhar raso e estéril. A infância não é um trecho do tempo que se extingue; é uma condição perene da alma, um estado de ser que transportamos connosco ao longo de toda a existência. Olhar para a criança na sua plenitude implica contemplar um triângulo inscrito num círculo maior a que chamamos Comunidade - seja ela o reduto da família, o círculo dos amigos ou o tecido da sociedade. Os vértices deste triângulo são a Promessa, a Oportunidade e a Vulnerabilidade. Aqui, nesta primeira idade, a dependência do outro não deve ser encarada como um fardo; ela é, fundamentalmente, a oportunidade áurea de partilhar, de ganhar ferramentas para a vida e de permitir que quem a rodeia participe ativamente na beleza de ajudar a formar um ser humano.

Este mapa geométrico e espiritual acompanha-nos ao longo das três idades. Na transição para a juventude, ainda que a dependência mude de cor e ganhemos uma autonomia aparente, a verdade é que as referências continuam lá: os pais, os professores, os técnicos de educação e os mestres que nos guiam. Julgamo-nos independentes na idade adulta, mas isso é apenas o mais sedutor dos enganos, que mais tarde ou mais cedo nos desengana. Na verdade, somos todos crianças que envelheceram. A diferença é que os outros - que connosco partilham o mundo - e nós próprios fomos ganhando uma espessa e pesada carapaça, uma armadura de autodefesa forjada para suportar as asperezas do quotidiano. Sob essa crosta, porém, a vulnerabilidade original permanece intocada.

Há momentos em que a pressa avassaladora do mundo atual nos tolhe. Acordamos para o dia - e este acordar não é o mero espreguiçar físico, mas o despertar da nossa consciência - e encontramo-nos ainda na encosta íngreme da serra, fustigados pelo nevoeiro e pela negridão das preocupações. A distância a que nos encontramos desse estado ideal de clareza é ditada pela altitude da nossa predisposição matinal. Vencer essa encosta e alcançar o "planalto do discernimento", onde a calma nos recorda que somos os construtores do nosso próprio caminho, exige de nós uma energia hercúlea: a junção da vontade que projeta o espírito e da força de vontade que sustenta o passo.

Mas sempre que insistimos em caminhar e atingimos esse planalto, o milagre da renovação acontece. Livres do entulho das memórias acumuladas, das coisas boas e menos boas que ficaram para trás, entramos num território sem relevo prévio. Nesse espaço de pura possibilidade, recuperamos a soberana liberdade de escolher entre imaginar e construir: decidir se dali nascerá uma serra que sobe em direção à luz ou um vale que declina em direção ao desgaste. Esta oportunidade é menos poética e rara do que pode parecer: eu vejo-a como um contexto que pode acontecer - e é bom que aconteça - mais do que uma vez por dia. Ilustremo-lo como o momento em que conquistamos o tempo e o espaço necessários para tomar uma decisão e agarrar a ação num sentido e com a intensidade que quisermos, logo que possamos. Numa frase: um espaço-tempo outro, onde reunimos a condição de escolher sem o peso dos vícios, das paixões e dos metais que transportamos, diariamente, na trouxa.

É neste exato lugar que regressamos ao mundo com olhos de criança, operando uma verdadeira reconciliação connosco e com o próximo. É a transposição exata daquela dinâmica que se pratica nas belas aulas de teatro que frequento, no Centro de Artes e Espetáculos - a chamada "dinâmica do palhaço". Nela, somos desafiados a caminhar pelo espaço e a olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Olhamos para uma vassoura, para o chão, para a bandeira ou para um estandarte com um absoluto maravilhamento. Ao retirarmos os rótulos e as utilidades das coisas, abrimos espaço para uma condição fértil de criatividade e de liberdade, soltando-nos das amarras daquilo em que acreditamos ou queremos.

Aplicar esta atitude às dinâmicas humanas é um ato de profunda libertação. Permite-nos ver o outro como uma realidade inteiramente nova, e não como um mero e fatigante repetidor do erro. Afinal, caímos frequentemente na armadilha de fragmentar a nossa identidade e a dos outros. Fazemos julgamentos errados porque comparamos tempos diferentes: o observador do presente analisa o «eu» ou o «outro» do passado ou do futuro com uma métrica injusta, esquecendo que o próprio sujeito da análise já mudou. O outro parece-nos uma falha crassa porque descuramos o atendimento que deveríamos dar à complexidade humana.

Importa, por isso, reforçar o entendimento sobre o erro alheio. A grande maioria dos erros cometidos não resulta de uma vontade esclarecida de fazer o mal ou de magoar. O erro resulta quase sempre da ignorância, de um défice de conhecimento ou de uma incapacidade qualquer - seja ela de nível fisiológico, mental, moral ou psicológico - que, naquele instante preciso, a pessoa simplesmente não consegue controlar.

Tal como no exemplo límpido da criança na escola: quando ela espoja as suas mãos pequenas na lama e as apresenta sujas, não existe ali a malícia premeditada de prejudicar a vida ou o trabalho da auxiliar de educação que a acompanha. A criança age pelo apelo puro da novidade. Falta-nos, enquanto adultos envelhecidos, essa capacidade de suspender o juízo imediato que injeta maldade onde há apenas experiência.

Na conclusão desta viagem, cumpre enfatizar que nós somos sempre os outros. Somos os outros para os que nos rodeiam, sofrendo também o peso do julgamento deles, e somos os outros para nós próprios num tempo e numa condição diferentes. O nosso «eu» de ontem é o «outro» que o «eu» de hoje tende a julgar sem clemência.

Recuperar este olhar desarmado, livre de preconceitos e reconciliado com o presente, não é um regresso à inocência ingénua. A inocência ignora o mundo. Isto, pelo contrário, é o fruto supremo de uma maturidade esclarecida e de uma disciplina férteis, que escolhem a tolerância e recusam a desistência. Cada decisão de recomeçar no planalto, desnudando o olhar perante a alteridade do tempo e do próximo, é um ato de resistência poética. É reiniciar a vida. É voltar, por direito próprio e com a força da vontade, à augusta condição de criança.

Se é verdade que este texto, no dia de hoje, se poderia esperar focado exclusivamente na infância, é ainda mais verdade que os infantes de hoje deslizarão pelo tempo e serão, como nós, crianças envelhecidas e enrijecidas pela vida. Também elas precisarão tanto de formar uma carapaça, como de saber quando e como libertar-se dela.

Feliz dia das crianças que somos a todos! Às criancinhas mais jovens, aos cuidadores, mas muito especialmente aos cuidadores que hoje têm de ser cuidados - regressando à vulnerabilidade, à oportunidade e à promessa da comunidade que ajudaram a criar e na qual se inscrevem.

E assim, para mim, é.

António Carraco dos Reis

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